quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Inspirado no LIVRO DE JÓ


JÓ SUBJETIVO

O chão, perverso e insensato, o chão e a cinza
A cinza, a cinza para o corpo, o corpo para a cinza
O alívio distante, o fogo diminuindo tudo
Por fora e por dentro

Chão de cinza, suporte para um corpo
Diminuído em sufoco e dor
Cacos de cerâmica em que busco alívio
Alívio que não chegará antes
Da palavra final!
Oh, podridão da carne...
Por que essa carne geme de doença
E dúvida?
No início, quando só a extensão da vida
Se apagava e me deixava sem a vida
Que tanto me ocupava com alegria
E dever, construção e graça,
Tive força ainda para proclamar
A fidelidade de filho obediente
Perdi bens e vi morrer filhos e filhas
Mas meus olhos ainda eram
Feitos para o céu
Dos domínios do céu fui banido
Quando o manto perdido
Mostrou-se pouco para a vida
Quando a tortura do corpo me assaltou
Vi meu corpo exposto
Aos mesmos desmandos do Caos
A pele que se preservava
E que, em humilde submissão,
Despira do nobre manto
Tornou-se alvo do estranho propósito
Expondo a minha total impotência

A dor se tornará silêncio...
Para que outro propósito se afirme
Palavra demanda razão
Que não se concilia com a dor
Mas o pensamento floresce
Enquanto o ar tem entrada

Olho para a doença e estabeleço novo laço
Compreendo a intimidade com a pureza
E nem por isso fujo
De reconhecer minha consciência
Neste corpo castigado
Nele vejo a história de perdas e mortes
Contudo, reconheço ali a pureza
A condenação toma distância
Encontro refúgio na dor
Ela que não me permitia pensar
Agora se alia ao pensamento
Enquanto me deforma
Também me transforma
A consciência mantém seu cedro
Mas a memória tem aroma de inocência
Posso comungar com a pureza
E suspirar de leveza
Em plena ferida da carne
Poderia sorrir se isso não ferisse
De escândalo meus três amigos
Que vieram se consolar comigo
E me fazer companhia no chão
Da desgraça lamentosa
Lamento em silêncio
Sem palavras previsíveis
Em que poderia eu me perder
Se não percebesse à espreita da amizade
A instalação de um severo tribunal

Por que vocês não vão embora?
Por que vocês querem me ferir ainda mais?
Não basta o que estão vendo?
Precisam testemunhar
O que não quero que ninguém veja?
E se não quero ser visto,
É por que preciso ficar só
Para pensar sem ter que falar

Mas é preciso falar, gritar e gesticular
Tomem o meu grito... “Ai”
Mostrem seu verdadeiro desígnio
Querem ouvir meu gemido de dor?
Querem chorar mais diante do céu?
Não sou estrategista e não penso como criminoso
Minha defesa não se pauta em estratégia
Para despertar compaixão de ninguém
Sou miserável e estou falando para que me ouçam
Um homem precisa ser mais que sua defesa
A defesa precisa ser mais do que lei
Pois a lei é para todos, mas a defesa é pessoal
Cabe a mim provar que alguém
Quem quer que esteja instigando Deus contra mim
Está deturpando a redação da lei
Inverte o seu raciocínio
Para confundir a nós, seus subordinados
Eis a única explicação para a sentença...
Meu sofrimento não é pelo crime,
É sim, prova de resistência!...
Olhem para cima e deixem Nosso Pai falar
Desconsideremos seu instigador
A resposta é não!
O que era para se esperar
Negam minha defesa e recusam meu argumento
Expõem a lei até o esgotamento
Minha versão não lhes anima o coração
Então a comunidade me abandona!

Por querer conservar a lei
Vocês não estavam prontos
Para meus gritos de revolta ou defesa
Menos ainda se dispõem
A ouvir a desconstrução da verdade
Que tem sustentado suas leis
Minhas palavras são surpresa
Porque o inusitado se introduz na minha voz
Cujo eco vem do escuro
Mistério para quem me ouve

Evidencio minha inocência
Pelo temor dos quem detêm a lei
Quero conduzir minha defesa
De modo a preservar o tribunal
Sem destruir suas colunas
Mas as contradições estruturais
Mancham a perfeição do templo
Se minha defesa deve ser completa
Não há desejo de vingança pela injustiça atuante
Rogo por justiça plena
Em todas as instâncias da vida
Eu, Jó, não pedirei a morte
Antes de estabelecer com o tribunal
Uma relação amistosa
Uma sombra de diálogo
Sob uma árvore generosa
Uma relação onde minha voz ecoe
Sob garantia de um julgamento justo
Eis que busco o esgotamento
Da questão que vocês recusam
Mas minha observância fará efeito
Na vida real do meu povo
Pois é na falência que identifico
O rosto do irmão diminuído
Pelo mesmo braço opressor
Que agora me enterra
Já que um dia eu o acolhi
Agora sei que somos iguais

Sob o mesmo olhar contemplativo
Somos todos acompanhados
Eu, com os outros “pecadores”
Resistimos à lei dos grandes
Porque o verdadeiro crime será revelado
Na consciência alheia do criminoso
Na história da inteligência de Deus
Quando a escrita perpetuar as lembranças
De uma lei a ser questionada
E de uma frase a ser anunciada
Com humildade de criatura mortal:
“Foi por nada que me instigaste contra Jó”

Um comentário:

  1. Regina, muito bom. Não conhecia este seu lado poetisa. Parabéns.

    Adhemir

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