terça-feira, 22 de maio de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
ESPECIAL [19/05] Sábado – Se Vira Ribeirão no Espaço A Coisa (Artes Visuais e Blues com Sarau Literário)
No sábado, o Espaço A Coisa abre a suas portas para um dia de atividades gratuitas. O evento é parte integrante do “Se Vira Ribeirão”, a virada cultural realizada por artistas e produtores da cidade para suprir o cancelamento da Virada Cultural da cidade. A programação começa às 14h com a palestra sobre fotografia e intervenção urbana de Joyse Cury, professora do curso de Fotografia do Instituto A Coisa, e outros. Em seguida, atividades de oficina e intervenção com os artistas João Naccarato, Rui e Fábio Marquês, entre outros.
Às 23h59 acontece a estreia da banda de blues “Pé no Saco”, dentro do projeto Madrugada Literária, que pretende realizar uma grande balada literária com muita música e poesia na madrugada ribeirãopretana. Além da declamação de textos pelos músicos, o público é convidado a ler poemas e a escrever textos com giz na parede do Espaço A Coisa, expandido a literatura para além dos livros, tornando-a viva na experiência de cada participante. A entrada para a estreia deste evento na Madrugada Literária será gratuita, dentro da programação do “Se Vira Ribeirão”.
Espaço A Coisa (PROGRAMAÇÃO)
Intervenções Urbanas
Fotografia
Photostorm – Mariana Simon sábado 14hs/16hs
Palestra e ação Urbana – Joyce Cury e Emanuel Dlouhý 15hs duração indeterminada
Vídeo
Oficina e ação urbana – Marcos Amorim 16hs duração indeterminada
Exibição de Curtas – a partir das 22hs – Ação coletiva – Seleção de Gabriela Hebling
Pintura
Bate papo e Intervenção Urbana– João Naccarato, Rui e Fábio Marques 14hs duração indeterminada!
Intervenção Sensorial Água – Juliane e equipe 20hs
Música – Blues com “pé no saco” – 00hs/3hs
Madrugada Literária – 00hs – Declamação de textos e poemas pelos músicos e público que está convidado a escrever textos com giz na parede do Espaço A Coisa.
Pirofagia – Rodrigo Villac e Marcelo Mamute – 00hs
***
Madrugada Literária
Na madrugada de sábado para domingo, banda de blues “Pé no Saco”que vai tocar sem couvert artístico a partir das 23h59 (entrada livre)
PÉ NO SACO: “Blues e literatura. Projeções e embriaguês. Já dizia Vininha sobre os desencontros do tempo, dos percalços do caminho. Vamos de vagar e curtindo muito a viagem que a casa é nossa. Dia 19/05, sabadão, lá pra meia noite, vamos colocar o nosso blues canalha no Espaço a Coisa e misturá-lo às poesias da madrugada num copo bem grande. Tudo dentro da programação da virada cultural independente de Ribeirão Preto, o Se Vira Ribeirão. Vamos colocar umas poesias nas paredes, sinta-se livre pra tomar o microfone e gritar os versos, vai rolar também projeção de alguns longas como “HWY: An american pastoral”, do Jim Morrison, “Almoço nu” baseado na obra do William S. Burroughs e mais algumas imagens que surgirem no imaginário geral. A entrada é gratuita, preservando o ir e vir dos nossos colegas”
Data e hora
Dias 19 de maio, das 14h até as 3h da manhã do dia 20 de maio.
Entrada
Gratuita
domingo, 6 de maio de 2012
o Mal na sala de visitas de Goethe
Se Goethe contribuiu, no projeto do "Sturm und Drang", com a língua alemã, acabou também contribuindo para confortar o espírito alemão, ao transportar o Mal (do mito faustiano) para a ficção. Com "Fausto" (a primeira parte publicada em 1801 e a segunda, publicada em 1832), o gênio alemão de Goethe concede a Mefisto voz e pensamento. Mostra seu comportamento e os traços da sua personalidade. Subtrai, assim, a figura demoníaca do seu meio folclórico (a lenda do homem que vende a alma ao Demônio tinha ganhado expressão através das chamadas volksbuch) para elevá-lo ao campo da Arte, da representação.
A obra de Goethe tem duas partes, mas a que se popularizou mesmo foi a primeira. Ali está o drama do médico Fausto que assina um contrato comprometendo sua alma após a morte, em troca de conhecimento. Ainda vivo, porém, ele conhece o amor de Margarida e se arrepende do contrato, pois sua amada pertence a outro plano espiritual. Margarida está no plano do divino, pertence ao discurso sacro, ao mundo da fé. Fausto, pelo contrato, já não pertence a esse mundo; mudou-se para o plano racional da vida, comunga com o conhecimento sem limites, as artes sem moral, os prazeres do saber e da estética.
Mas por ser sempre insaciado e inconformado, Fausto despreza as barreiras que o separam de Margarida e a seduz. O resultado da intransigência: sua amada perde sua aura, perde-se... cai em desgraça, morre.
Está feita aí, na perdição de Margarida, a reconciliação do homem com sua consciência de ser limitado; está restabelecida a ordem contaminada pelo Mal. Mas muitas perguntas ficam no ar: se Fausto amou e se sentiu merecedor de amor, então por que rompeu com o plano do amor divino, aqui compreendido como o amor que salva, que resgata, que converte, como era a figura de Margarida?... Diferente de Dante, na "Divina Comédia", o herói faustiano se vê promotor da morte, eliminador da esperança, inimigo da fé... Se em Dante sua amada Beatriz (a conversão) já está morta (no Paraíso), em Goethe, a esperança de salvação aparece primeiro em vida, vulnerável, à mercê da ação de Fausto... E é por estar viva que Margarida não consegue converter o amado, mas ao contrário, perde-se por causa dele. Assim, a vida é o palco do Mal, para Goethe. É aqui que o Mal se articula, rompe num disfarce da natureza, num mandacaru, num cachorro, em qualquer coisa que possa chamar a atenção de um homem desesperado. Lança suas artimanhas e corrompe o coração fragilizado pela dor e pelo ódio. Ganha a mente talentosa e inteligente, sedenta de saber e ávida por desvendar mistérios. É no corpo vivo que o Mal se encarrega de operar sua força.
Mas se o Mal opera na vida, por que Fausto conheceu o amor depois de se tornar meio-vida-meio-morto?
Ou... o que seria então o amor redentor de Margarida?... Para Fausto, seria ele a verdadeira maldição?...
Fui assistir à peça A INCRÍVEL HISTÓRIA DE BENEDICTO FAUSTO E DE SEU IRMÃO PERSIVALDO O SONHADOR. Trata-se de mais uma leitura do clássico alemão. Aqui, Fausto é um brasileiro do Nordeste, uma alma opressiva com o sofrimento do seu meio, de um lado, e com o desejo de ruptura, de outro. Sob domínio de Mefisto, o ambicioso poeta do nordeste segue para São Paulo em busca de dinheiro e de "tudo que o dinheiro pode comprar". Deixa para trás o conformado irmão Persivaldo, que acredita na água (que Deus há de mandar). A peça traça as duas histórias, o irmão que permanece no plano do sagrado (Persivaldo) e o que segue as diretrizes da Razão (Benedicto).
Já enriquecido com a ajuda de Mefisto, o irmão rebelde acaba descobrindo outros problemas: sua vida de rico empresário enfrenta o conflito de classes. Fausto, que conheceu a miséria e foi vítima de exploração no passado, agora tem que combater aqueles se sentem explorados por ele. Como Mefisto tem a missão servir Fausto durante sua vida, ele promove uma festa para acalmar os ânimos do proletariado e transmitir a ideia de que Fausto é um bom patrão. E eis que a festa (estratégia mefistofélica) acaba se tornando palco do encontro de Fausto com a operária Margarida. Os dois se apaixonam, claro!... Fausto, porém, finge: não deixa a moça saber que ele é seu patrão. Estamos diante de dois mundos opostos: burguesia versus proletariado, razão versus sagrado.
A Margarida desta versão segue a tradição goethiana: acaba morrendo depois de ganhar consciência de que fora enganada por Fausto.
O Mal opera na vida. Ele não deixa Margarida acreditar que Fausto a ama de verdade. Ela acredita na diversidade dos mundos. Ela acredita na enganação do Demônio.
E Fausto?... No que ele acredita?... Por conhecer o amor após o pacto, ele acredita que Margarida lhe é uma provação?... Um sinal de Deus (que ele desprezara)?...
Na peça acima citada, do dramaturgo Luciano Dami, o Fausto nordestino deseja se salvar voltando ao nordeste e à companhia do irmão Persivaldo. É o retorno às origens como tentativa de restauração e correção dos erros. Percebemos neste Fausto um inconsciente impulso contra as forças que o motivaram a sair do Nordeste: a mulher do irmão - a Margarida nordestina - é a continuação da provação, do infortúnio, da queda... a queda que se dera com a morte da Margarida operária paulista. Não há salvação em vida quando se assina um contrato com o Mal: Benedicto Fausto se suicida. Na morte, sem as fragilidades da doença da alma, Fausto é julgado favoravelmente graças a um poema dedicado à sua amada, antes de conhecê-la. É nesse amor sem destinatário que a peça mostra ao espectador uma parte fundamental do complexo de Fausto: o homem capaz vender a alma ao demônio em troca de coisas mundanas é também um homem de alma não-mundana... Por isso Fausto nunca deixara de ser metafísico.
O Mal... que possibilitara todo o quadro da tragédia de Benedicto Fausto torna-se também um Mal em vias de reflexão, de análise, de exame contínuo. O Mal precisa nos responder porque possibilitou a Fausto seu encontro com Margarida.
peça: A INCRÍVEL HISTÓRIA DE BENEDICTO FAUSTO E DE SE IRMÃO PERSIVALDO O SONHADOR
elenco: ALUÍSIO GENTILINE, JONAS VILLAR, BRUNO IAGO, FÁBIO BOTELHO, FRANCINE ASSAD, GRAZIELE AMBROSIO, NATÁLIA COUTINHO
dramaturgia: LUCIANO DAMI
direção: ALUISIO GENTILINE
A obra de Goethe tem duas partes, mas a que se popularizou mesmo foi a primeira. Ali está o drama do médico Fausto que assina um contrato comprometendo sua alma após a morte, em troca de conhecimento. Ainda vivo, porém, ele conhece o amor de Margarida e se arrepende do contrato, pois sua amada pertence a outro plano espiritual. Margarida está no plano do divino, pertence ao discurso sacro, ao mundo da fé. Fausto, pelo contrato, já não pertence a esse mundo; mudou-se para o plano racional da vida, comunga com o conhecimento sem limites, as artes sem moral, os prazeres do saber e da estética.
Mas por ser sempre insaciado e inconformado, Fausto despreza as barreiras que o separam de Margarida e a seduz. O resultado da intransigência: sua amada perde sua aura, perde-se... cai em desgraça, morre.
Está feita aí, na perdição de Margarida, a reconciliação do homem com sua consciência de ser limitado; está restabelecida a ordem contaminada pelo Mal. Mas muitas perguntas ficam no ar: se Fausto amou e se sentiu merecedor de amor, então por que rompeu com o plano do amor divino, aqui compreendido como o amor que salva, que resgata, que converte, como era a figura de Margarida?... Diferente de Dante, na "Divina Comédia", o herói faustiano se vê promotor da morte, eliminador da esperança, inimigo da fé... Se em Dante sua amada Beatriz (a conversão) já está morta (no Paraíso), em Goethe, a esperança de salvação aparece primeiro em vida, vulnerável, à mercê da ação de Fausto... E é por estar viva que Margarida não consegue converter o amado, mas ao contrário, perde-se por causa dele. Assim, a vida é o palco do Mal, para Goethe. É aqui que o Mal se articula, rompe num disfarce da natureza, num mandacaru, num cachorro, em qualquer coisa que possa chamar a atenção de um homem desesperado. Lança suas artimanhas e corrompe o coração fragilizado pela dor e pelo ódio. Ganha a mente talentosa e inteligente, sedenta de saber e ávida por desvendar mistérios. É no corpo vivo que o Mal se encarrega de operar sua força.
Mas se o Mal opera na vida, por que Fausto conheceu o amor depois de se tornar meio-vida-meio-morto?
Ou... o que seria então o amor redentor de Margarida?... Para Fausto, seria ele a verdadeira maldição?...
Fui assistir à peça A INCRÍVEL HISTÓRIA DE BENEDICTO FAUSTO E DE SEU IRMÃO PERSIVALDO O SONHADOR. Trata-se de mais uma leitura do clássico alemão. Aqui, Fausto é um brasileiro do Nordeste, uma alma opressiva com o sofrimento do seu meio, de um lado, e com o desejo de ruptura, de outro. Sob domínio de Mefisto, o ambicioso poeta do nordeste segue para São Paulo em busca de dinheiro e de "tudo que o dinheiro pode comprar". Deixa para trás o conformado irmão Persivaldo, que acredita na água (que Deus há de mandar). A peça traça as duas histórias, o irmão que permanece no plano do sagrado (Persivaldo) e o que segue as diretrizes da Razão (Benedicto).
Já enriquecido com a ajuda de Mefisto, o irmão rebelde acaba descobrindo outros problemas: sua vida de rico empresário enfrenta o conflito de classes. Fausto, que conheceu a miséria e foi vítima de exploração no passado, agora tem que combater aqueles se sentem explorados por ele. Como Mefisto tem a missão servir Fausto durante sua vida, ele promove uma festa para acalmar os ânimos do proletariado e transmitir a ideia de que Fausto é um bom patrão. E eis que a festa (estratégia mefistofélica) acaba se tornando palco do encontro de Fausto com a operária Margarida. Os dois se apaixonam, claro!... Fausto, porém, finge: não deixa a moça saber que ele é seu patrão. Estamos diante de dois mundos opostos: burguesia versus proletariado, razão versus sagrado.
A Margarida desta versão segue a tradição goethiana: acaba morrendo depois de ganhar consciência de que fora enganada por Fausto.
O Mal opera na vida. Ele não deixa Margarida acreditar que Fausto a ama de verdade. Ela acredita na diversidade dos mundos. Ela acredita na enganação do Demônio.
E Fausto?... No que ele acredita?... Por conhecer o amor após o pacto, ele acredita que Margarida lhe é uma provação?... Um sinal de Deus (que ele desprezara)?...
Na peça acima citada, do dramaturgo Luciano Dami, o Fausto nordestino deseja se salvar voltando ao nordeste e à companhia do irmão Persivaldo. É o retorno às origens como tentativa de restauração e correção dos erros. Percebemos neste Fausto um inconsciente impulso contra as forças que o motivaram a sair do Nordeste: a mulher do irmão - a Margarida nordestina - é a continuação da provação, do infortúnio, da queda... a queda que se dera com a morte da Margarida operária paulista. Não há salvação em vida quando se assina um contrato com o Mal: Benedicto Fausto se suicida. Na morte, sem as fragilidades da doença da alma, Fausto é julgado favoravelmente graças a um poema dedicado à sua amada, antes de conhecê-la. É nesse amor sem destinatário que a peça mostra ao espectador uma parte fundamental do complexo de Fausto: o homem capaz vender a alma ao demônio em troca de coisas mundanas é também um homem de alma não-mundana... Por isso Fausto nunca deixara de ser metafísico.
O Mal... que possibilitara todo o quadro da tragédia de Benedicto Fausto torna-se também um Mal em vias de reflexão, de análise, de exame contínuo. O Mal precisa nos responder porque possibilitou a Fausto seu encontro com Margarida.
peça: A INCRÍVEL HISTÓRIA DE BENEDICTO FAUSTO E DE SE IRMÃO PERSIVALDO O SONHADOR
elenco: ALUÍSIO GENTILINE, JONAS VILLAR, BRUNO IAGO, FÁBIO BOTELHO, FRANCINE ASSAD, GRAZIELE AMBROSIO, NATÁLIA COUTINHO
dramaturgia: LUCIANO DAMI
direção: ALUISIO GENTILINE
quinta-feira, 3 de maio de 2012
O PERSONAGEM
Quando nasce um livro, as
personagens, ou pelo menos seus protagonistas, já estão velhos. Assim eu
percebo meus personagens. Porque eles nascem bem antes da história. Eles vagam
por muito tempo no plano infinito antes de serem confrontados com o real.
O
que é o Real para um personagem fictício?... O real lhe chega como uma outra
ficção, pois só assim essas duas entidades, personagem fictícia e realidade,
conseguem se fundir. Essa realidade
disfarçada de ficção não teme qualquer ameaça. Ela é vigorosa porque é só ideia;
não possui ação, não contempla reações, valor, juízo. Ela é uma foto do real
mas não possui o estatuto da realidade. Assim,
o personagem fictício consegue se inserir nela e articular com suas forças...
energia que vem do Real (consciência, valor, juízo, ação).
Ao se encontrar num plano de possibilidade
real, do limite, não mais do infinito, o personagem entra no processo de
construção, de fato. Meus personagens são mais vivos e coerentes quanto mais
viva e forte é a experiência real que os abraçou e os transportou para o
enredo. Meus personagens fatalmente resistirão à escrita enquanto não houver
uma harmonia nesse encontro, nessa junção.
Deve haver um mínimo de harmonia.
Paradoxalmente,
o personagem muitas vezes nascerá da própria negação do real e isto tornará sua
construção ainda mais terrível. Contudo, ele buscará uma via de acesso enquanto
vagar pelo campo da ideia. Ali ele mostrará várias faces mas estas raramente
revelarão nitidamente sua essência. Mesmo antes de ganhar páginas, o personagem
detém uma essência e ela só terá chance de se revelar com fidelidade quando se
consumar a ficção/criação. Nesse
estágio, a ideia terá se materializado, a sustentação daquele coração fictício
terá enfim uma chancela: a Forma.
Palavra
e Realidade são portanto as frentes de batalha em que o personagem de ficção
travará sua luta por concretização, ora se entregando, ora resistindo. Ele se
nutrirá da seiva do conhecimento da realidade. No ato da escrita, quando o real
é disperso, nebuloso, maquiado, o personagem tende a recuar. O conhecimento aqui significa a realidade
vivenciada como confronto, mesmo no cotidiano. Ainda que esse confronto se
dilua no tempo de vivência – o que amortece o poder de impacto da experiência
vital – deve se abrir os olhos para o arrebatamento. Pois é através dele que o
personagem fugirá da invenção para se tornar ficção.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
quinta-feira, 19 de abril de 2012
PREFÁCIO DO NOVO LIVRO A SER PUBLICADO EM BREVE
O PROJETO REVISTA MASCULINA
Em janeiro de 2002 escrevi um conto chamado “Revista Masculina”. Nesse texto, bastante longo para um conto, eu quis criar um personagem que trouxesse consigo um perfil ou algumas características do perfil que vinha sendo mostrado em revistas, sites e programas sobre comportamento, que tratavam do homem atual. Não são poucos os artigos, crônicas, reportagens que revelam os desafios, as insuficiências, os deslocamentos e a insegurança do homem do século XXI, seja em relação à nova mulher, seja em relação às novas exigências do mundo em transformação.
Esse era o projeto daquele texto primeiro. Mas, obviamente, para um tema dessa natureza não bastou um conto. Ao longo dos anos foram surgindo muitos textos inspirados na temática: o universo masculino nesse início de século. Até 2006 foram escritos: “Close UP”, “Encanto”, “A Agressão”, “Confronto”, “Laudo de Perícia Sobre o Sr Alceu Ferrero”, “Menta”, “O Ensaio na Casa Vizinha”, “O Baile Debutante”, “Amor Pensado”, “Longe do Teu Coração”, “Quick Motion”, “Beth e Fred”, “A Conexão”, “As Torres”, “Desafetos”, “Filhos de Caim”, “Joana D’Arc”, “Os Negociadores”, “Trilogia dos Enganos”, “Aparição”, “Close Up em Marcela”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina”, “Fraudes e Delitos”, “Futebol”, “O Homem que Quis Ver o Pôr do Sol”, “O Aquário”, “Trilogia dos Cineastas Desamparados”, “Voo Rasante” e “Verônica Boêmia”. Todos permanecem inéditos, com exceção de “Beth e Fred” que foi publicado na antologia “Elo de Palavras” (Scortecci, 2008).
Entre 2007 e 2008 eu tentei organizar esse material. Ao me debruçar sobre ele para um julgamento crítico, deparei-me com alguns textos péssimos, outros razoáveis, alguns bons, muitos inacabados e algumas narrativas longas demais, além da diversidade de construção. Percebi, sobretudo, que o propósito da coletânea inicial estava sendo “invadido” por outros temas. Tratei de fazer divisões e definir o que realmente pertenceria à coletânea, que deveria se chamar “Revista Masculina”. Então, a seleção daquele momento ficou assim: “Close Up”, Close Up em Marcela”, “O Baile Debutante”, “Encanto”, “Futebol”, “Beth e Fred”, “Fraudes e Delitos”, “Aparição”, “O Homem que Quis Ver o Pôr do Sol”, “Longe do Teu Coração”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina” e “Quick Motion”. Uniu-se à seleção, claro, o texto que deu origem ao projeto, “Revista Masculina”. Além desses, também foram incorporados à coletânea o conto “Incidente na Academia de Ginástica”, vindo de outra coletânea inédita, “Um Dossiê Médico”, e também “Dia Útil”, retirado da coletânea inédita homônima.
Ao descartar boa parte da coletânea original, acabei unindo alguns desses textos num novo conjunto. Surgia a coletânea “Filhos de Caim”. O mais interessante, ao fazer esse novo arranjo, foi perceber que a atmosfera dessa nova seleção tinha um gosto de “livro maldito”. Entre os malditos foram selecionados: “A Conexão”, “As Torres”, “Desafetos”, “Filhos de Caim”, “Joana D’Arc”, “Os Negociadores”, “Trilogia dos Enganos”, “Voo Rasante”, “A Agressão”, “Confronto”, “Laudo de Perícia Sobre o Sr Alceu Ferrero”, “Menta”, “O Ensaio na Casa Vizinha” e “Amor Pensado”. Mais tarde foi composto para essa coletânea o conto “Memórias de Uma Infância Oculta”.
Mas voltando à “Revista”, surge agora a vontade de publicar ao menos uma pequena parte daquela seleção de 2008. Fez-se assim mais uma seleção de textos, cujo subtítulo é “O Homem Exposto”. Para este primeiro volume de “Revista Masculina”, algumas narrativas sofreram pequenas alterações. O que se intitulava, originalmente, “Encanto”, foi rebatizado de “O Homem Encantado”. Já “Close Up” e “Close Up em Marcela”, tornaram-se apenas “Close Up”, pois o segundo título era apenas continuação do primeiro. Unem-se a elas: “Beth e Fred”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina” e “Quick Motion”. De modo geral prefiro não nomear de Contos esta seleção, e sim apenas de Narrativas, visto que os recursos de linguagens usados em alguns textos vão além do tradicional Conto. “Quick Motion”, por exemplo, segue um formato de roteiro de televisão ou cinema, embora também não tenha a intenção de respeitar rigorosamente o padrão de roteiro. “Close Up” segue essa mesma linha; aqui o leitor é conduzido por uma câmera para observar o diálogo do casal Marcelo e Marcela. Em “O Homem Encantado”, o diálogo entre o Diretor e o Ator se faz sem a presença de um narrador. Aliás, o subtítulo “O Homem Exposto” decorre também dessa referência ao homem contemporâneo como objeto de observação de mídias, como a televisão e a revista.
Em janeiro de 2002 escrevi um conto chamado “Revista Masculina”. Nesse texto, bastante longo para um conto, eu quis criar um personagem que trouxesse consigo um perfil ou algumas características do perfil que vinha sendo mostrado em revistas, sites e programas sobre comportamento, que tratavam do homem atual. Não são poucos os artigos, crônicas, reportagens que revelam os desafios, as insuficiências, os deslocamentos e a insegurança do homem do século XXI, seja em relação à nova mulher, seja em relação às novas exigências do mundo em transformação.
Esse era o projeto daquele texto primeiro. Mas, obviamente, para um tema dessa natureza não bastou um conto. Ao longo dos anos foram surgindo muitos textos inspirados na temática: o universo masculino nesse início de século. Até 2006 foram escritos: “Close UP”, “Encanto”, “A Agressão”, “Confronto”, “Laudo de Perícia Sobre o Sr Alceu Ferrero”, “Menta”, “O Ensaio na Casa Vizinha”, “O Baile Debutante”, “Amor Pensado”, “Longe do Teu Coração”, “Quick Motion”, “Beth e Fred”, “A Conexão”, “As Torres”, “Desafetos”, “Filhos de Caim”, “Joana D’Arc”, “Os Negociadores”, “Trilogia dos Enganos”, “Aparição”, “Close Up em Marcela”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina”, “Fraudes e Delitos”, “Futebol”, “O Homem que Quis Ver o Pôr do Sol”, “O Aquário”, “Trilogia dos Cineastas Desamparados”, “Voo Rasante” e “Verônica Boêmia”. Todos permanecem inéditos, com exceção de “Beth e Fred” que foi publicado na antologia “Elo de Palavras” (Scortecci, 2008).
Entre 2007 e 2008 eu tentei organizar esse material. Ao me debruçar sobre ele para um julgamento crítico, deparei-me com alguns textos péssimos, outros razoáveis, alguns bons, muitos inacabados e algumas narrativas longas demais, além da diversidade de construção. Percebi, sobretudo, que o propósito da coletânea inicial estava sendo “invadido” por outros temas. Tratei de fazer divisões e definir o que realmente pertenceria à coletânea, que deveria se chamar “Revista Masculina”. Então, a seleção daquele momento ficou assim: “Close Up”, Close Up em Marcela”, “O Baile Debutante”, “Encanto”, “Futebol”, “Beth e Fred”, “Fraudes e Delitos”, “Aparição”, “O Homem que Quis Ver o Pôr do Sol”, “Longe do Teu Coração”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina” e “Quick Motion”. Uniu-se à seleção, claro, o texto que deu origem ao projeto, “Revista Masculina”. Além desses, também foram incorporados à coletânea o conto “Incidente na Academia de Ginástica”, vindo de outra coletânea inédita, “Um Dossiê Médico”, e também “Dia Útil”, retirado da coletânea inédita homônima.
Ao descartar boa parte da coletânea original, acabei unindo alguns desses textos num novo conjunto. Surgia a coletânea “Filhos de Caim”. O mais interessante, ao fazer esse novo arranjo, foi perceber que a atmosfera dessa nova seleção tinha um gosto de “livro maldito”. Entre os malditos foram selecionados: “A Conexão”, “As Torres”, “Desafetos”, “Filhos de Caim”, “Joana D’Arc”, “Os Negociadores”, “Trilogia dos Enganos”, “Voo Rasante”, “A Agressão”, “Confronto”, “Laudo de Perícia Sobre o Sr Alceu Ferrero”, “Menta”, “O Ensaio na Casa Vizinha” e “Amor Pensado”. Mais tarde foi composto para essa coletânea o conto “Memórias de Uma Infância Oculta”.
Mas voltando à “Revista”, surge agora a vontade de publicar ao menos uma pequena parte daquela seleção de 2008. Fez-se assim mais uma seleção de textos, cujo subtítulo é “O Homem Exposto”. Para este primeiro volume de “Revista Masculina”, algumas narrativas sofreram pequenas alterações. O que se intitulava, originalmente, “Encanto”, foi rebatizado de “O Homem Encantado”. Já “Close Up” e “Close Up em Marcela”, tornaram-se apenas “Close Up”, pois o segundo título era apenas continuação do primeiro. Unem-se a elas: “Beth e Fred”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina” e “Quick Motion”. De modo geral prefiro não nomear de Contos esta seleção, e sim apenas de Narrativas, visto que os recursos de linguagens usados em alguns textos vão além do tradicional Conto. “Quick Motion”, por exemplo, segue um formato de roteiro de televisão ou cinema, embora também não tenha a intenção de respeitar rigorosamente o padrão de roteiro. “Close Up” segue essa mesma linha; aqui o leitor é conduzido por uma câmera para observar o diálogo do casal Marcelo e Marcela. Em “O Homem Encantado”, o diálogo entre o Diretor e o Ator se faz sem a presença de um narrador. Aliás, o subtítulo “O Homem Exposto” decorre também dessa referência ao homem contemporâneo como objeto de observação de mídias, como a televisão e a revista.
terça-feira, 10 de abril de 2012
O TITANIC E O IMPERIALISMO
Quando menina, tive em mãos um livro de história que elencava, cronologicamente, os grandes fatos históricos, de maneira resumida, como uma sequência de flasches. Me chamou a atenção ver entre os fatos, normalmente de natureza política e econômica, um acidente marítimo. Dali em diante, tudo que dizia respeito ao naufrágio do Titanic me despertava interesse. Acho que eu esperava encontrar alguma relevância do acidente para a história geral, mais do que um fato importante apenas na história marítima.
Não devemos ignorar a repercussão mundial que o acidente ganhou, graças ao papel da imprensa na época, mas também podemos considerar que o naufrágio aconteceu no auge do chamado Imperialismo, o que nos remete a um momento de intensa animação capitalista. O imperialismo é marcado pelo domínio territorial de algumas nações, fortalecidas pela Revolução Industrial, e que buscavam novas fontes de matéria prima e mercado consumidor. Esse fenômeno, que percorre do final do século XIX a 1914, tem no Reino Unido seu maior exemplo de expansionismo. Seu domínio atinge a Índia, a África do Sul, a China... A Europa toda vive nesse espírito de fortalecimento político, conflitos de classes, competição desenfreada, expansão territorial e cultural, exploração de reservas naturais... O mundo vive as consequências do apogeu do capitalismo clássico (europeu). A Indústria desenvolve tecnologias num ritmo acelerado. A corrida armamentista transformou algumas nações imperialistas em potências bélicas, além de construir alianças entre elas.
É nesse cenário que é construído o transatlântico Titanic, pela White Star Line, do Reino Unido. Não há como não associar a tecnologia e o luxo do navio à prosperidade política e industrial, buscada na época com um empenho nunca visto.
O acidente, portanto, carrega uma marca, um tom, que nos liga àquele espírito de competição e turbulência. A ironia do acontecimento fica por conta dos primeiros registros da causa do naufrágio: um iceberg!... Como pode um mundo que aprendera a dominar a natureza para arrancar-lhe os recursos necessários aos seus projetos, ser surpreendido por essa mesma natureza e sofrer uma das maiores catástrofes até então?
Sem que haja nenhuma relação entre o acidente e a política, apenas dois anos depois do naufrágio do Titanic, a Europa inicia a Primeira Guerra Mundial, que ao longo dos quatro anos de duração mergulha o continente num dos mais trágicos feitos históricos. Como sabemos as nações mais poderosas do período, como o Império Britânico, saíram vencedoras da guerra. Mas a devastação e as crises subsequentes, de toda ordem, fizeram diminuir o ritmo daquela luta de titãs.
Não devemos ignorar a repercussão mundial que o acidente ganhou, graças ao papel da imprensa na época, mas também podemos considerar que o naufrágio aconteceu no auge do chamado Imperialismo, o que nos remete a um momento de intensa animação capitalista. O imperialismo é marcado pelo domínio territorial de algumas nações, fortalecidas pela Revolução Industrial, e que buscavam novas fontes de matéria prima e mercado consumidor. Esse fenômeno, que percorre do final do século XIX a 1914, tem no Reino Unido seu maior exemplo de expansionismo. Seu domínio atinge a Índia, a África do Sul, a China... A Europa toda vive nesse espírito de fortalecimento político, conflitos de classes, competição desenfreada, expansão territorial e cultural, exploração de reservas naturais... O mundo vive as consequências do apogeu do capitalismo clássico (europeu). A Indústria desenvolve tecnologias num ritmo acelerado. A corrida armamentista transformou algumas nações imperialistas em potências bélicas, além de construir alianças entre elas.
É nesse cenário que é construído o transatlântico Titanic, pela White Star Line, do Reino Unido. Não há como não associar a tecnologia e o luxo do navio à prosperidade política e industrial, buscada na época com um empenho nunca visto.
O acidente, portanto, carrega uma marca, um tom, que nos liga àquele espírito de competição e turbulência. A ironia do acontecimento fica por conta dos primeiros registros da causa do naufrágio: um iceberg!... Como pode um mundo que aprendera a dominar a natureza para arrancar-lhe os recursos necessários aos seus projetos, ser surpreendido por essa mesma natureza e sofrer uma das maiores catástrofes até então?
Sem que haja nenhuma relação entre o acidente e a política, apenas dois anos depois do naufrágio do Titanic, a Europa inicia a Primeira Guerra Mundial, que ao longo dos quatro anos de duração mergulha o continente num dos mais trágicos feitos históricos. Como sabemos as nações mais poderosas do período, como o Império Britânico, saíram vencedoras da guerra. Mas a devastação e as crises subsequentes, de toda ordem, fizeram diminuir o ritmo daquela luta de titãs.
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