segunda-feira, 28 de março de 2016

PARA ALÉM DA CRISE POLÍTICA, O BRASIL PODE ESTAR SE LIVRANDO DO CAPITAL SUJO

Em agosto de 2013, a presidente Dilma Rousseff sancionou as leis 12.850 e 12.846. A primeira trata, entre outros pontos, de tornar mais clara e precisa a Colaboração Premiada, ou como já se tornou conhecida: a Delação Premiada, uma ferramenta importante de investigação, conforme temos visto na mega Operação Lava Jato, da Polícia Federal, pois a prática de delatar cúmplices garante o avanço degrau por degrau até chegar a altos escalões de organizações criminosas. Já a lei 12.846, também conhecida como Lei Anticorrupção, dá extensão ao braço da lei até as empresas envolvidas em corrupção. Antes, apenas as pessoas físicas eram processadas. Com a nova lei as empresas também sofrem as consequências das investigações.
Todo esse aparato tem surtido um efeito magnífico na danosa relação Capital-Estado no Brasil; magnífico porque finalmente estamos assistindo a punição atingir até os herdeiros de poderosas corporações, como a Odebrecht, por exemplo, que há décadas suga recursos públicos por meio de atividade ilícita, segundo o pesquisador Pedro Campos, autor do livro “Estranhas Catedrais – As Empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar”. Temos aqui um exemplo vivo do poder da lei quando há disposição para aplicá-las. No caso presente, um juiz federal de primeira instância, Sérgio Moro, conduz o processo com mão de ferro. É verdade que há muita controvérsia envolvendo a neutralidade política do juiz, mas o fato é que as empresas envolvidas nos escandalosos esquemas de propina finalmente estão saindo da sombra da impunidade e podem perder seu confortável lugar de parasita do Estado.
Mas é possível que no calor da batalha que é mostrada pelas mídias tradicionais (imprensa) e pelas novas (redes sociais), aqueles que estão indo às ruas e culpando apenas governantes talvez não percebam a verdadeira extensão dessa batalha. O episódio da Lava Jato, aparentemente, está promovendo a discórdia entre brasileiros, ou entre pró e contra Governo, ou entre petistas e tucanos. Mas a grande mudança está na violenta luta que vem sendo travada contra o Capital sujo. Pois corrupção existe em todo lugar em qualquer tempo, mas no Brasil ela ganhou o status daquilo que o juiz Moro chama de corrupção sistêmica, onde os esquemas vão envolvendo quem chega ao poder, como se fosse um processo natural, como se o “toma lá, dá cá” fizesse parte da normalidade.
Pois bem, o Governo Federal sancionou as leis, o Judiciário está aplicando-as. Temos, portanto, o Estado em convulsão, tentando expelir de seu organismo um modelo esgotado de “parceria” com o Capital privado; sem dúvida é preciso mudar a conduta, livrar-se de práticas antigas. A crise política atual consiste não apenas na sede de alguns partidos de tomar o poder, mas sobretudo de preservar as velhas fórmulas de manutenção desse poder, ou seja, deixar tudo como sempre esteve. Mas não: as leis 12.846 e 12.850 fazem parte de um processo de mudança radical, a não ser que no desenrolar da crise, sob os novos ocupantes do poder, elas sejam revogadas.   
No fim das contas é possível que as instituições saiam debilitadas, pois um processo de impeachment é como uma fratura exposta. Mas, ao contrário do que ocorreu com o impeachment de Fernando Collor, agora há chance de uma mudança real, profunda, onde o Estado, superada a crise, possa fornecer a chance igualitária de concorrência entre empresas limpas; e onde o dinheiro público esteja sob vigilância de organismos mais severos de controle.

Tudo vai depender do que nossas entidades sócio-políticas estão aprendendo com tudo isso.  O que está em jogo é o perfil do próximo chefe do Executivo. 

domingo, 20 de março de 2016

SÉRGIO MORO E O "COMPLEXO DE NICHOLAS MARSHALL"


No início dos anos 90, se não me falha a memória, havia um seriado americano de televisão chamado no Brasil de “Justiça Final”. Nele o protagonista, juiz e ex policial Nicholas Marshall, era um homem frustrado com o sistema jurídico porque a tecnicidade da lei o impedia de “fazer justiça”. Ele fazia uma clara distinção entre servir ao Sistema e servir à Justiça. Para julgar seus réus segundo o que achava ser o melhor para a sociedade, à luz da Lei, mas driblando a burocracia, a corrupção e os vícios do sistema, Marshall adotava um procedimento: quando deixava seu gabinete ou tribunal, vestia-se formalmente com calça jeans e jaqueta de couro, cabelos despenteados, e saía para a rua. Frequentava os lugares mais perigosos da noite, os becos suspeitos e escuros, enfim, o ambiente onde seus perigosos investigados praticavam crimes. Como um simples cidadão ele podia se infiltrar no mundo do crime e resolver os casos à sua maneira.
            O juiz federal Sérgio Moro se parece muito com o modelo de magistrado dotado do “Complexo de Nicholas Marshall”, termo cunhado pelo jurista Alexandre Morais da Rosa para identificar o juiz que atua como um vingador social. Se bem que no caso de Moro poderíamos usar o termo vingador político. E não é difícil perceber a origem da sua frustração de juiz de gabinete: no Brasil, em especial, na nossa democracia, a relação Estado-Capital é muitas vezes cancerosa, nociva, sujeita à corrupção. Moro deve ter acompanhado o processo da Operação Satiagraha, da Polícia Federal (entre 2004 e 2008, aproximadamente) e o seu destino infeliz. Essa operação – que investigou ações ilícitas do empresário Daniel Dantas e de seu Banco Opportunity, desde o Governo FHC até o Governo Lula – ocasionou a exposição do Judiciário brasileiro como poucas vezes se viu: o conflito entre o juiz federal Fausto de Sanctis (que cuidava do caso) e o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que de modo suspeito julgou a favor de Dantas e em prejuízo da Polícia Federal e do juiz Fausto de Sanctis, levando ao arquivamento das investigações e deixando no ar o fantasma da injustiça.
            Além disso, o próprio Moro já declarou que se inspirou na Operação Mãos Limpas, do judiciário da Itália, como seu método de fazer justiça. Assim como a operação italiana, a Operação Lava Jato convoca a máquina midiática para ganhar a atenção da opinião pública e deixar os envolvidos “em maus lençóis” publicamente. Assim ele espera encontrar atalhos no mecanismo de punição a criminosos dos altos escalões da política, de estatais e de grandes empresas privadas.
Contudo, é preciso lembrar que o juiz Marshall da ficção era um ex policial e portanto seu recurso (as ruas, a noite, os becos) não são totalmente estranhos a ele. Quando tira a toga e veste a calça jeans, ele sabe que está assumindo um outro lado que ele conhece bem. Mas no caso do nosso Marshall brasileiro, seu recurso para driblar o sistema é fazer uso da histeria da massa. Para obter sucesso na sua empreitada ele teria que ter domínio sobre esse universo. Do contrário, ao bater o martelo, ele pode até derrubar um Governo, mas não derrotará sua maior inimiga: a corrupção sistêmica.
Pela articulação de partidos e políticos em face de um possível impeachment da Presidente Dilma, se nota que estão sendo tomadas as providências em nome da tomada e manutenção do poder. Velhos jogos tendem a manter os mesmos jogadores. E aqueles que estão indo às ruas mostrar sua revolta com a corrupção tornam-se joguetes nas mãos desses políticos que, descaradamente, estão arrumando o terreno para tomar posse assim que ele estiver desocupado.

Joguete... É a isso que pode estar destinado o papel dos que pedem o fim da corrupção. As vítimas salvas pelo herói fictício Marshall estão longe de representar as vítimas da corrupção do herói Sérgio Moro, pois ele mesmo já se tornou vítima do seu próprio método. Quando as ratazanas de Brasília não precisarem mais dele, enterrarão seu nome como um traidor, charlatão ou qualquer coisa que seja desprezível aos olhos da massa. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Mexendo nas gavetas



Tempos atrás acompanhei os noticiários sobre a Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Dentre muita coisa publicada a respeito daquela operação, uma das mais inquietantes para mim foi a reportagem da revista Veja, edição número 2069, de 16 de julho de 2008. A partir disso, escrevi para o Jornal Enfim, de Ribeirão Preto, o seguinte artigo:


DEMOCRACIA E PODER

            Toda vez que o Brasil é invadido por notícias escandalosas sobre corrupção, nomes de indivíduos envolvidos são citados à exaustão até que o principal interessado – o cidadão/eleitor – se desanime e conclua, por repetição de casos, que não haverá justiça. Esse tem sido o cotidiano de nossa democracia, orgulhosa de suas conquistas. Lamentavelmente a opinião pública vira as costas para o caso quando percebe que será apenas mais um caso de impunidade do crime do colarinho-branco.
A questão é que por trás dos indivíduos estão as instituições que sustentam a democracia. Quando tomamos conhecimento de denúncias de corrupção, estamos diante de um jogo onde não somos meros espectadores mas sim parte fundamental dele. Nesse tido de jogo de poder que envolve personagens da vida política e empresarial é de extrema importância, para corruptos e corruptores, que a sociedade fique indiferente, para que assim as forças que os levaram a julgamento fiquem desmoralizadas e fragilizadas. Outra peça importante é a imprensa. Por conta de sua tendência à passividade, os brasileiros de modo geral “legitimam” os noticiários como se eles já representassem o julgamento e a punição dos acusados, o que causa repulsa àqueles que observam a Lei. Ao contrário de clareza em todos os cantos, o que temos assistido é o desvio de holofotes das instituições para ações esquematizadas na medula do Poder. Nessa trajetória repetitiva perdemos de vista o papel do Juiz, a palavra final que restauraria a confiança pública.
Talvez o nosso “distanciamento” em relação à instituição do Judiciário seja o único ponto fraco da nação quando o assunto é impunidade. Ou talvez os tribunais é que se sintam aquém ou além das mentes do povo... Fomos educados para entender que a democracia se faz com o voto; assim, o Legislativo e o Executivo são concebidos na dinâmica cultural como os grandes responsáveis pela ordem, enquanto o Judiciário aparece ao cidadão comum como um universo paralelo, misterioso e quase inalcançável. Esse tipo de analfabetismo propicia aos envolvidos no jogo de poder uma flexibilidade ao longo dos processos de investigação, denúncia, julgamento e sentença. Muitas informações prévias sobre o funcionamento do mecanismo da Justiça, que poderiam nos ajudar a compreender a lógica particular de cada caso, são perdidas no caminho e na memória. Comportamentos de tribunais são mostrados por jornais, revistas e televisão como ações inquestionáveis. É difícil ao cidadão comum saber se uma decisão judicial fere ou não a constituição. Além disso, desconhecemos o real poder e competência de cada Tribunal; tampouco sabemos sobre os recursos aos quais as defesas recorrem. Sobre os inquéritos de que tanto ouvimos falar, pouco conhecemos de suas estruturas para avaliar os resultados. Um mar de informações nos inunda visando sempre a emoção e raramente a razão. O jogo torna-se enfadonho!
            E contudo, os valores da democracia ainda são presentes e fortes em nosso espírito. Apesar dos esquemas de corrupção parecerem transmitidos de um governo a outro, os discursos óbvios continuam repetindo o mesmo refrão: a solução está na educação.

            A Escola talvez pudesse fazer cidadãos mais conscientes se adotasse, por exemplo, cursos de noções sobre o funcionamento da Justiça, no ensino público. Ao dominar os mecanismos da instituição onde repousa a segurança da nação, o brasileiro poderia finalmente saber o que acontece no jogo. Numa entrevista à Revista Veja (edição de 16 de julho), o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, disse que “o juiz contemporâneo é aquele que abre as janelas do direito para o mundo”. Se isto valesse como sentença, teríamos esperança de ver noticiários diferentes no futuro.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

FÓRUM VIRTUAL está pronto


Sobre meu novo romance FÓRUM VIRTUAL:

Todos os personagens estão conectados à internet em tempos diferentes. Dentre eles, uma jornalista, Ana Débora, e seu primo, Eduardo, estão trocando e-mails, numa conversa sobre família. Ana Débora, tenta justificar sua ausência numa festa que Eduardo está preparando para o aniversário da avó dos dois. A justificativa acaba conduzindo a conversa para a carreira de Ana Débora. E é nesse momento que entra em cena uma matéria de revista que fez da jornalista uma referência na Imprensa brasileira.
Todo o romance está centrado na história dessa matéria.

A ficção de FÓRUM VIRTUAL tem como base um fato real, publicado por pelo menos dois grandes veículos de comunicação, além de outros veículos menores e muitos, virtuais.

A narrativa segue um modelo não tradicional da prosa. Eu optei por criar um ambiente narrativo que se assemelha ao próprio visual da internet. Os mais de 140 personagens são apresentados apenas pelas suas palavras. Eles não possuem rostos, nem gestos, nem voz. É nas suas palavras escritas que o leitor irá identificar a tensão, a emoção, a opinião, o estado psicológico em que o personagem se encontra quando se manifesta.

Do ponto de vista da narrativa, me orgulho de ter ousado na minha experiência como narradora: eu usei a dinâmica da internet para "brincar" com o tempo  e com o espaço. Mas outro ponto que também me fascina é que as discussões virtuais dos personagens algumas vezes funcionam como vozes narrativas que lembram bem um grupo de amigos acampados numa noite escura, dividindo histórias misteriosas.



domingo, 11 de maio de 2014

POTENCIALIZAÇÕES: O CASO FABIANE

POTENCIALIZAÇÕES: O CASO FABIANE

            Em abril deste ano, circulou pelos jornais virtuais a notícia de que um jovem casal havia sido atacado na cidade de Guarujá. Os dois, vindos do ABC paulista, estariam tentando pichar uma rocha perto de uma praia. Estariam pichando “ABC”  quando foram abordados por um grupo de pessoas que estava na praia. Segundo os noticiários on-line o grupo castigou os dois jovens, pichando-os de preto. As fotos expostas na internet mostram um rapaz e uma moça pintados totalmente de preto, inclusive os rostos.
            A agressão a esse casal me lembrou outros episódios modestamente mostrados ultimamente nos sites de notícias dando conta de justiçamentos (pessoas agindo por conta própria para punir alguém acusado ou flagrado em algum delito).  Mas nenhuma dessas histórias se compara ao que ao que aconteceu com Fabiane Maria de Jesus, também na cidade de Guarujá. Os sites de notícias e outros canais midiáticos contaram que na tarde de sábado, dia 03, uma dona de casa fora confundida com um retrato falado que circulava pelo Facebook, numa página chamada Guarujá Alerta. O retrato falado seria de uma criminosa que raptava crianças para usá-las em rituais de magia negra. Fabiane, a dona de casa, teria sido confundida com o retrato.  Moradores do bairro Morrinhos, de Guarujá, atacaram, arrastaram, agrediram, lincharam Fabiane. Ainda segundo os noticiários, a polícia teve que fazer um cordão de isolamento para que uma ambulância conseguisse socorrer a dona de casa. Fabiane foi levada para o hospital mas morreu na manhã de segunda-feira, dia  05.
            Durante toda esta semana os noticiários estiveram em busca dos fatos que levaram à tragédia, mesmo porque as imagens do linchamento foram expostas na Internet, o que causou algo que se pode chamar de uma angústia coletiva. Uma angústia coletiva provocada pela tentativa de compreender o que parece inexplicável... E vieram as investigações, depoimentos na polícia, análise das cenas mostradas na rede. Com a repercussão do caso, chegou-se à origem do tal retrato falado: fora feito pela polícia do Rio de Janeiro em 2012, por conta de tentativa de rapto. Uma mulher teria tentado arrancar um bebê dos braços da mãe que saía de um posto de saúde. Um homem que passava conseguiu recuperar o bebê mas a mulher, a suposta sequestradora, conseguiu fugir. A mãe foi à polícia e descreveu a mulher. O retrato falado, porém, não ficou só nos arquivos da polícia do Rio; perambulou pela rede e chegou a várias cidades, inclusive de outros estados. Ao que parece, ao longo desses dois anos de “compartilhamentos” e propagação do retrato no mundo virtual, o rosto da mulher desconhecida fora ganhando versões diferentes, mas sempre associadas ao perigo, ao crime. Na cidade de Guarujá a página do Facebook chamada “Guarujá Alerta” publicou o retrato informando que se tratava de uma mulher que roubava crianças para usá-las em ritual de magia negra. Ainda segundo os sites de notícias, os administradores da página teriam permitido a divulgação da imagem sem pesquisar sua origem e a veracidade da denúncia, embora alertassem que pudesse se tratar de um boato. E era um boato. Aliás, no período de propagação da imagem, o retrato ganhou o status do que se costuma chamar de lenda urbana, a expressão de um sentimento ou um sentido que, devido a uma série de fatores, se potencializa, se agiganta numa comunidade, ainda que no silêncio, na discrição, na mudez... Somado à potencialização tradicional da “lenda urbana” temos a potencialização tecnológica proporcionada pelos recursos da comunicação virtual, que agilizam o tráfego de imagens, sons e palavras digitais por espaços virtuais.
            A história pessoal de Fabiane cruza com essas potencializações no momento em que ela passa por uma crise na saúde. Segundo o marido da dona de casa, ela era diagnosticada com transtorno bipolar e por esses dias vinha sofrendo uma crise. Passava horas fora de casa, criando pretextos para visitar amigos e parentes, andando de bicicleta pelas ruas, falando às vezes frases desconexas... agindo, enfim, sob o efeito de um distúrbio mental, que nem sempre é compreensível por quem não está familiarizado com a pessoa portadora da doença. As últimas informações levantadas pelos noticiários dão conta de que o momento chave que desencadeou no linchamento de Fabiane ocorreu quando ela, ao sair de um mercado, ofereceu uma fruta a uma criança. Pessoas que estavam por perto associaram o gesto da mulher ao retrato falado e ao alerta que se via na página “Guarujá Alerta”. Confundiram as coisas, misturaram tudo num sentimento só, tomaram a dona de casa como a mulher do retrato. Para piorar tudo - triste coincidência! - na manhã daquele dia Fabiane tinha tingido os cabelos de uma cor diferente dos seus, por isso não foi reconhecida imediatamente por ninguém no local, que pudesse esclarecer a situação naquele momento tenso de acusação. Em meio ao clima de dúvida, por um lado, e de revolta, por outro, venceu a acusação e o sentimento de vingança, o sentimento de ódio cego. Fabiane foi brutalmente agredida por causa de uma confusão que envolvia uma opinião coletiva. Uma opinião que, por ser coletiva, deveria ser “verdadeira” e principalmente de autoria anônima. Sob o anonimato do gesto, comungado, de destruir a suposta bruxa, os participantes do linchamento não se incomodaram com as câmeras digitais que fotografaram e filmaram tudo... Agiram movidos pelo ódio, sem perceber que poucos dias depois seriam alvo desse mesmo ódio, só que mais potencializado, levado à esfera do nacional e do internacional. Tomaram consciência, enfim, de que supliciaram e mataram uma pessoa inocente...

            Ironias do mundo digital!...

domingo, 26 de janeiro de 2014

palestra JUVENTUDE E INTERNET

amanhã, segunda-feira, dia 27 de janeiro,

às 20:00 hs,

na paróquia SÃO JOÃO BATISTA (Av. Portugal, 2120 - Ribeirão Preto-SP)

tema: JUVENTUDE e INTERNET

minha palestra fará parte das atividades da recém-criada PASTORAL FÉ E POLÍTICA na paróquia.

todo mundo convidado...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

CONSCIÊNCIA NEGRA... E MUSICAL

Certa vez ouvi uma lenda que dizia mais ou menos assim: nos tempos da dominação europeia sobre os continentes americanos, após uma batalha onde uma tribo indígena tinha sido dizimada, um jovem índio sobrevivente correu até outro sobrevivente, este bem mais velho, e implorou com revolta: “vamos nos vingar, vamos nos vingar desses europeus”. Mas o velho índio, que vinha observando de longe os costumes dos dominadores, e percebendo que eles andavam experimentando alguns hábitos dos próprios índios, respondeu: “não se preocupe, filho, nossa vingança já foi consumada, sem que os europeus percebessem”
Segundo o contador da lenda, o velho índio estava se referindo ao hábito de fumar, que para as tribos tinha uma função ritualística, mas que para o homem branco viria a se tornar um hábito mortal.
Assim como o velho e sábio índio da lenda previa, pode-se dizer que o Ocidente todo se tornou, não vítima mortal, mas refém da sedutora música negra, cujas matrizes vieram nas mentes  dos escravos africanos, nos navios negreiros. Eis a vingança do negro escravizado!... Que atire a primeira pedra quem nunca cambaleou diante de uma canção de Blues, sem imaginar a cena de escravos negros cantando tristemente em meio às plantações do sul dos EUA... Ou quem nunca parou para acompanhar um improviso de Jazz... Ou quem nunca cantou junto com um roqueiro branco tentando imitar a voz rouca do negro...  Ou quem nunca ameaçou fazer uns passinhos de samba com aquela mesma entrega e leveza do corpo negro dançante... Ou quem nunca se tornou fã de pelo menos um nome da nossa Bossa Nova...
A música originária dos ritmos trazidos pelos escravos negros contagiou a música do Ocidente de tal forma que não houve sequer um grande ídolo da nossa  Música que não teve que beber da fonte africana.   Todos os deuses da Indústria fonográfica se curvaram à música negra.
Indústria e tradição...  Tudo bem, há séculos a Indústria dá o tom da conversa... mas a emoção não pode ser medida pela indústria, por mais que ela tente. Há algo de fugidio naqueles corredores das plantações do Mississipi... Há algo de enigmático nas frases de um jamaicano que olha as ondas do mar... Há muito mais entre a silhueta da garota de Ipanema e o movimento do barquinho a deslizar do que sonha nossa vã filosofia...

Não há capitalismo que dê conta dessa força da raça negra metaforizada na Música do Ocidente.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

COMO ESCREVER UM ROMANCE

Não existe fórmula. Depois de ler muitos romances, elencados como os maiores da literatura universal, a gente só tem que perceber o que faz deles tão bons.  Normalmente você vai encontrar exigências como, por exemplo, a singeleza, a captura da linha narrativa, o recorte do tempo e do espaço em que se passa a história, a discrição do discurso, ou a argumentação no caso do romance de ideias... tem também a linguagem, a sintaxe do autor... Bom, ao longo dos anos, esses são alguns pontos que tenho valorizado.

Não existe receita. Às vezes você sai de casa para ir à padaria e no meio do caminho uma cena qualquer faz brotar um pensamento na sua mente. Esse pensamento corre o risco de se conjugar com outras ideias que você traz e o resultado pode ser o desencadeamento de uma nova coisa que fica ali, batendo na sua cabeça até você parar e contemplar tudo, sem pressa. Dependendo da intensidade de emoção (ou ebulição), pode ocorrer de você ter sonhos estranhos à noite. Então você acordará e passará o dia todo com a sensação de que, se colocar algumas coisinhas num papel, vai se sentir melhor. É aí que você morde a isca jogada pelo Romance.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ressaca pós escrita


Um período de insônia, um período de queda premeditada, um infinito em queda livre... Assim eu poderia, muito superficialmente, descrever como foi escrever FÓRUM VIRTUAL, minha primeira experiência baseada em fatos reais... história real e trágica... Foi como encarar de frente os meus distúrbios mais imprevisíveis. O ser humano é inatingível quando o escritor se atreve a falar do seu suicídio. Assim foi que meu protagonista manteve-se, da primeira à última linha do livro, absolutamente inatingível. Não programei esse feito, ele aconteceu naturalmente durante o processo da escrita. O protagonista está ali o tempo todo, exposto de todos os ângulos, mas o leitor não o alcança, assim como as dezenas de personagens a quem o caso é apresentado. Cheguei ao fim da narrativa com a mesma certeza do início: todo aquele universo, que remete à perplexidade, ao desespero, ao caos, fora criado para ser observado apenas através de uma tela de computador. Acho que meu livro conseguiu respeitar essa lei.

terça-feira, 9 de julho de 2013

CINCO MINUTOS

De 06 a 16 de junho aconteceu a 13a. Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto.
No estande de Autores Locais e Regionais foi criado um espaço para apresentações, palestras ou qualquer coisa que escritores locais quisessem fazer. Então me veio a ideia de realizar uma performance com base no meu livro ATO PENITENCIAL, que faz referência ao mito de Fausto. Como na Feira desta edição o país homenageado era a Alemanha eu vi a oportunidade de inventar alguma coisa sobre o ATO e sobre Fausto (de origem alemã). Minha apresentação foi marcada para 15/06.

Bom, criei uma personagem, imaginei um figurino e fui procurar algo parecido nas lojas; enquanto isso, escrevi o texto e ensaiei. Pelos cálculos a performance não duraria mais do que 5 minutos. (era o máximo que suportaria como centro das atenções, já que não sou atriz e tenho fobia de falar em público, mesmo estando entre amigos).

Foi por causa de um personagem que existiria  por apenas 5 minutos, que eu me sujeitei a perder 10 quilos. Comecei uma dieta no início de junho na vã esperança de perder todos esses quilos em poucos dias. Claro que não deu certo... mesmo eu publicando a dieta diária aqui no blog, como forma de me sentir vigiada...

De qualquer forma, realizei a apresentação. Não saiu nada, nada igual ao que eu havia ensaiado (sozinha). Mesmo que eu estivesse super magra e esbelta, o showzinho não valeria a pena.

Mas fiquei contente comigo, por vencer fobias, por deixar a literatura falar mais alto do que tudo.







quinta-feira, 9 de maio de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O QUE ANDO ESCREVENDO...


Já tenho comentado com alguns amigos sobre meu novo livro (que talvez esteja na metade ou próximo do fim, não sei). Nas vezes que converso - verbalmente - sobre esse livro sinto um estranhamento porque, ao tentar explicar aos meus amigos como ele está sendo escrito, percebo uma dificuldade (ou resistência) em introduzi-lo na Literatura. Posso afirmar, com certeza, que se trata de uma ficção. Posso dizer que, de alguma forma, se trata de uma narrativa fictícia onde há personagens, um protagonista, espaço, tempo... Mas ao mesmo tempo estou lidando com personagens, espaço e tempo contemplados por um outro "mundo", por um outro plano, onde há contagem cronológica, mas não há espaço geométrico e onde os personagens já não atuam na "história". São meros espectadores. Eles podem apenas comentar sobre a história assistida, mas não possuem o poder da ação e portanto não podem interferir no que já está dado. Além disso, esses personagens-espectadores, na sua grande maioria, não são identificados um pelo outro. Os comentários que emitem podem ser compartilhados por todos mas apenas enquanto palavra escrita. Não há rostos, não há vozes, não se percebe a emoção na fala porque não há palavra falada. Em resumo, o livro tem como tema geral a Internet...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

OLHO DE VIDRO - parte IX

Mais um capítulo de OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi. Ela o intitulou de “Estado de Sítio ou Diante da Lei da Opacidade”.
Este capítulo é, talvez, aquele em que Márcia mais se aproxima de uma contextualização jurídica ou legal da Televisão. O termo “estado de exceção” (que faz parte do subtítulo do livro: “A televisão e o estado de exceção da imagem”), quer atribuir à imagem televisiva um papel análogo à fronteira entre política e direito. Esse termo trata do ponto de vista jurídico/político, trata da suspensão do vivente enquanto sujeito. Na verdade está-se fazendo uma comparação da Televisão com a ordem militar “O telespectador precisa ser pensado a partir da condição biopolítica que ocupa com seu corpo dócil diante do aparelho que cativa sua percepção” (pg 156). Márcia conduz a tese no sentido de que Televisão “decreta um estado de percepção a que convencionamos chamar de realidade”.  Aí está seu estatuto de coisa instaurada, admitida como ordem ou norma, enfim, como realidade: o poder místico da imagem.
Contudo, a autora admite que, apesar da interferência dessa potência da imagem sobre o sujeito, o olhar ainda mantém seus atributos que, em conexão à força do objeto, se constrói numa dialética onde “a televisão é o totalmente visto que jamais é realmente visto porque ela impossibilita que se veja” (pg 162). Nesse ponto Márcia nos conta que Giorgio Agamben foi quem percebeu a semelhança da lei no conto “Diante da Lei”, de Franz Kafka, com a função da Televisão, pois tal como no conto, a televisão não exige nada, não impõe nada, está simplesmente aberta; cabe ao telespectador (tal qual o camponês do conto) entrar e viver as consequências.  
Encerro este trecho fazendo uma observação sobre a analogia feita por Márcia neste capítulo. No conto “Diante da Lei”, de Kafka, todo o sabor pungente da narrativa está concentrado no diálogo entre o sentinela e o camponês, no qual o primeiro nega acesso ao segundo, que ao chegar diante da porta da lei pede autorização para entrar. A negação do sentinela se estende sem que se ofereça uma justificativa plausível para tal. A reação do camponês – fiel ao estilo kafkiano – é aguardar pacientemente por dias, meses, anos, apenas intervindo na autoridade do sentinela no sentido de conquistar sua licença para passar. Bom, seguindo a proposta de Márcia Tiburi, ou seja, colocando no lugar da Lei a tela da Televisão, me parece que a função do sentinela torna-se uma espécie de provocação: o telespectador (no papel do passivo camponês), ao pedir licença para entrar, encontra a negação do acesso como uma provocação ou estímulo do seu “desejo de realidade”. Tal desejo não se cumpre porque esbarra numa autoridade (o sentinela) mas se preserva e até se acentua, fazendo com que o telespectador/camponês se mantenha firme na espera. Mas... e essa espera... o que é?  Que construção na vivência pode ocorrer durante essa espera, o período de questionamento sobre a autoridade do obstáculo e a ansiedade pelo acesso? Em Televisão acho que esse processo não comporta uma visão tão simples como proposto por Márcia. A autoridade que bloqueia a passagem ou a adia para “mais tarde”, fazendo com que o solicitante permaneça diante da porta, me parece mais um agente do mundo externo do que propriamente do mundo interno (lei/televisão). Ele oferece a manutenção desse “lado de fora” na medida em que preserva o camponês/telespectador perto de si, numa posição submissa porém isento das consequências do que acontece no lado de dentro, ainda que – como se revela no final do conto – aquela abertura fosse destinada ao solicitante. Contra a realidade almejada pelo solicitante (o lado de dentro), o sentinela oferece uma outra realidade, pautada na obediência da espera pela licença. No contexto da lei, porém, podemos aceitar que o solicitante queira um direito, uma justiça, uma legitimação, um reconhecimento... No contexto da televisão, o solicitante deseja tudo isso mas como prótese. No primeiro caso a autoridade nunca poderá oferecer uma prótese da verdade, porque a lei está somente ali, por trás daquela porta; mas no caso da televisão, o solicitante poderá dispensar a prótese se a realidade do lado de fora se tornar admissível. 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Yoñlu


Enquanto interrompo a leitura do livro da Márcia Tiburi - por preguiça mas também por ter outras prioridades de leituras - vou postar aqui as impressões sobre um CD de um músico do Rio Grande do Sul, que infelizmente já é falecido. 

Preciso esclarecer que meu ouvido é mais literário do que musical. Aliás eu não tenho conhecimento nenhum de música a não ser como apreciadora do trabalho de alguns artistas como Peter Gabriel, desde os tempos de Genesis, e talvez um pouco da MPB.
Vou escrever alguma coisa sobre as seguintes faixas (que estão nos dois CDs lançados postumamente): “Q-tip”, “Humiliation”, “I know what it’s like”, “Mecânica Celeste Aplicada(Luana)” , “Waterfall” e “Tiger”.

“Q-tip”. É uma música que chama atenção com suas cordas inofensivas que parecem nos conduzir para uma poesia musicada também inofensiva, mas... eis que surge no meio caminho um ruído... uma recorte de televisão, uma apresentação televisiva banal desses que assistimos todos os dias na TV, um locutor que deve apresentar as previsões meteorológicas e que está num dia péssimo e se atrapalha todo durante a locução do clima. Enquanto assistimos o homem do tempo se apavorar com seu trabalho, voltam as cordas, que agora caminham para um tom impiedoso, pesado, anunciante de um desfecho trágico de uma história que sequer tivemos chance de conhecer direito. Surgem gritos, gemidos, talvez uma morte. Não sabemos... (pelo menos eu não soube identificar). Parece que tudo é apenas televisão. Terminamos a audição com apenas uma certeza: estivemos reféns daquelas cordas, daquela melodia agradável e daquela estratégia, por alguns minutos... e nem nos demos conta disso.

“Humiliation”. Voz e violão, isso é tudo. E uma letra que expresse com harmonia toda a dor de ter que atravessar o inferno. E uma melodia que pergunta o sentido desse inferno. O próprio poeta responde da profundeza do seu infortúnio...
Mas se Dante visitou o inferno apoiado e guiado por seu mestre Virgílio, por que não fazer o mesmo, na companhia de um mestre também? Yoñlu tinha vários: João Gilberto, Caetano Veloso, Thom Yorke, Vitor Ramil, John Frusciante. Vê-se que eles estiveram presentes durante essa dolorosa travessia.

“I know what it’s like”. Parece um chamado, mas a voz demonstra algo como um relaxamento (embora a letra da música informe o contrário). Não nos detemos diretamente no pedido de socorro porque todo o ritmo tem algo de doce e leveza típica da MPB. O violão perambula por ruas ainda seguras e temos a certeza de dias bons. Mas a poesia grita. Grita numa voz suave a meio nasal (que a mim lembra um pouco Bob Dylan), que insiste em convencer que está tudo bem com o poeta.
Não, ele não está nada bem. A palavra não deixa dúvida: o poeta sofre e brinca de não sofrer para sobreviver. Dedilha o violão como um menino crescido nas rodas de boêmios, embora, na realidade, nunca tenha o hábito de sair para a boemia. A boemia parece-lhe um sonho. Eis o panorama que Yoñlu pinta nessa música e nessa poesia grandiosa, grave e coesa.

“Mecânica Celeste Aplicada (Luana)”. Mais uma vez sou atraída mais pelas palavras do que pelo ritmo. É vício de escritora... Nessa música, mais uma vez, Yoñlu nos engana com a leveza e com a suavidade de um ritmo, para nos mergulhar numa poesia crua. “O sol vê tudo” mas não vê o essencial. Eis a marca, talvez, de um momento dramático, pulsante, definitivo de Yoñlu. Ele sente que, por gostar de alguém, talvez possa viver a realidade, talvez possa assumir-se Vinícius. Mas a identidade que criara para se proteger do mundo está estabelecida. É difícil sair desse castelo, sobretudo para a noite, para a lua, para Luana. Assim, faz-se necessário observar o sol, que também não pode beijar a lua e permanece – como diria a poetisa Mara Senna – seu namorado eterno.
Mas essa eternidade dói demais. Ao mesmo tempo em que se coloca no lugar do sol, o poeta revela sua fragilidade diante do namoro não vivido, não declarado, não consumado.

“Waterfall”. Nas coisas que li aqui e ali na internet sobre Yoñlu, eu soube que um de seus sinais de bom humor era uma mania engraçada de, ao final de uma aula, perguntar ao professor “Mas e a relação com a água?”... A brincadeira agradava a classe e garantia ao adolescente deslocado uma imagem simpática perante os colegas. Mas acima dessa estratégia de sobrevivência psico-escolar podemos ver, na relação com água, algo mais profundo de Yoñlu: a questão da vida. Isso me parece claro nessa música que agrega violões pulsantes, vocais clamorosos como em prece - ainda que sem palavra - emergências sonoras dando sinais de algo lindo que virá. E vem. Temos batidas eletrônicas em ritmo cardíaco, acrescentadas de mais vozes vitais e contínuas que levam a um derramar abundante de água clara e pura.

“Tiger”. Deixei essa música para o final porque ela é a que mais me incomoda. Mas o incômodo é algo bom, magnífico, precioso, pois nos permite sair do banal. Sim, no que depender de nós, toda inquietação será despida!
Em alguns comentários que pude garimpar na internet, percebi que essa canção tanto pode ser adorada quanto odiada. Mas assim como qualquer obra que se encontra nessa súmula, “Tiger” é impossível de passar despercebida. É impossível ficar indiferente frente a uma música tão provocativa.
Em primeiro lugar Yoñlu faz aqui uma homenagem ao cinema ao se referir à saga de King Kong usando, porém, um tigre no lugar do animal herói. Essa comunicação me pareceu muito bem vinda porque traz à luz uma preciosidade do seu temperamento. O jovem músico, que gostava de gatos, humaniza um tigre na mesma medida em que animaliza o homem. Coisas de gênio!...
Como ele animaliza o homem? Simples: no meio da música Yoñlu implanta uns poucos segundos de uma fala em inglês de trás para frente. Sobre essa fala – incompreensível – ele sobrepõe algumas palavras dele em português que não informam nada de interessante, apenas alguns detalhes da gravação. E nós nos sentimos movidos a rodar a música no sentido inverso para saber o que foi dito no fragmento gravado de trás para frente. É assim que ele animaliza o homem: provocando sua curiosidade, sua racionalidade... exigindo que o homem se lembre do mito bíblico de Babel, quando Deus confundiu as línguas como castigo pela prepotência da humanidade. Temos então um ser humano impotente (desejando entender o desconhecido) e um tigre agindo com inteligência (ao convencer um ser humano fêmea de que a civilização não é tão bacana assim).
Mas além disso, do ponto de vista musical, quero chamar a atenção para a capacidade de Yoñlu costurar retalhos musicais. Imagino que construir numa única música um conjunto de ritmos seja uma tarefa ousada. Em “Tiger” os ritmos se alteram com precisão cirúrgica, conduzindo os ânimos do ouvinte sem que ele perca o chão (e se mantenha preso à música). Essa precisão eu já tinha ouvido em outra música de Yoñlu, “Yonner mix”, que eu garimpei na internet e que não está presente em nenhum dos dois CDs do músico. Enfim, fazer mistura é uma arte... É preciso misturar sem chocar ou repudiar aquele que vai provar a mistura. Ao contrário, a boa mistura seduz, atrai, domina.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VIII


Segue aqui o comentário de mais um capítulo da parte TELA do livro OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi. O capítulo intitula-se: “Medusa e máscara”.
Márcia acentua sua argumentação sobre a morte do sujeito frente à televisão. Aqui ela está tratando da busca de um sujeito do conhecimento. O sujeito do conhecimento quer captar o real, mas ao olhar para a tela da TV na ânsia de ver o real depara-se com uma máscara, a prótese do conhecer. Existe algo atrás da tela que é o objeto da busca do sujeito, ou telespectador mascarado de sujeito. Existe uma ilusão de que o que há por trás da tela seja o real. Contudo a tela, a superfície que separa o espectador do objeto a ser visto, possui o domínio sobre o objeto. A televisão aqui possui o poder da Medusa mitológica, que ao cruzar seu olhar com o espectador, o transforma em pedra. Essa pedra, agora podemos entendê-la como a própria audiência coletiva. “Se não há mais algo como sensibilidade é porque não se pode mais falar de um corpo no sentido em que conhecemos até aqui e se não há capacidade de reflexão pela consciência crítica  não há mais sujeito” (pg 150).
Perseu, o herói que vai enfrentar e vencer o poder de Medusa, só alcança a vitória porque também se faz máscara. Seu sucesso consiste na tarefa de evitar cruzar o olhar com o monstro. Em outras palavras, ele não pode deixar que seus olhos sejam aprisionados.
Márcia demonstra que, no entanto, as imagens que nos cegam – ou nos transformam em pedra – são parte de nós, já que foram feitas para nós, “já que de nós surgiram”. A audiência coletiva se conforma com um olhar coletivo da televisão sobre os telespectadores. Ela nos olha como um mesmo e único espectador; esse olhar tende, assim, a ser autoritário. Está encerrado o espaço para a ação cognitiva do indivíduo. A pele-tela que nos separa do objeto se encarrega de surrupiar a sensibilidade e banir o crítico da sala de TV. Mas como isso acontece? O texto nos diz da simetria entre a imagem televisiva (que deve agradar o espectador) e a servidão do espectador ao aparelho. Aqui compreendo que a Medusa petrifica quem a olha porque não quer ser vista. A Medusa-Televisão, por sua vez, petrifica porque - seguindo a reflexão de Márcia (apoiada por vasta bibliografia) - estabelece-se como deus, “exigência de adesão”. Esse novo deus dita a simulação do real (máscara) àqueles que se sentam diante da TV como um rito para conquistar certezas. O sujeito não apenas morre como se torna objeto do olhar televisivo.

Encerro este comentário  observando que, na teledramaturgia brasileira, assim como em programas variados, raramente se vê a presença de um aparelho de TV no cenário, a não ser quando num dado momento da narrativa faz-se necessário a presença dele. Mas de modo geral, mesmo num cenário que represente uma casa (de qualquer classe), nunca se vê um aparelho de TV presente, contrariando ou mascarando a realidade, visto que esse eletrodoméstico é comum em grande parte das casas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VII


Passamos para a 2ª. Parte do livro “OLHO DE VIDRO”, de Márcia Tiburi. Essa parte recebe o título de TELA. E seu primeiro capítulo: “Prótese, Superfície, Tela”.
Nesse primeiro capítulo Márcia se apoia em Walter Benjamin para nos localizar em seu discurso. Márcia nos mostra, através de Benjamin, a mudança, o deslocamento que a percepção sofreu com a introdução da tela de cinema num mundo onde estávamos habituados com a tela com imagem parada. Houve um choque, uma violência, cuja consequência é uma alteração radical no espectador. “Podemos interpretar este perigo existencial como uma nova forma de comportamento em que uma ação causa uma reação, em que a hiperexcitação não apenas aniquila a capacidade ativa, mas a torna compulsiva, ou seja, robotizada, não livre”. (pg 129)
O olhar, dependente agora do movimento, torna-se evento do tempo. O corpo está imóvel. E imóvel tende a ficar a reflexão enquanto se busca acompanhar o movimento.  O espectador, agora telespectador, precisa se organizar diante de uma prótese da vida, a tela sob a dinâmica da nova técnica de imagem. Nessa condição, em relação a tela tradicional, o prejuízo do sujeito é inevitável.
Considerando que o mundo das imagens é de natureza não só estética mas também política, Márcia propõe que olhemos para transformação do sujeito que assiste à tela em movimento: “O sujeito é devolvido a si mesmo como coisa, em certo sentido é dessubjetivado” (pg 135). Todo o processo começa com a alegação de que o espectador já não busca o objeto mas é por ele capturado. O objeto se interpõe. Na medida em que esse processo é de ordem coletiva a cognição é estetizada. O olho fixo na tela – o ato de tele-ver  ou  inver – reduz o sujeito que olha em sujeito protético.
Termino esse breve resumo com a exposição de Márcia Tiburi sobre os termos “telona” (cinema) e “telinha” (televisão). “Enquanto a grande tela nos abarca para nos mostrar o que é maior do que nós mesmos, promovendo distância e crítica, dúvida e autorreflexão, a pequena tela seria aquilo que abarcamos com nosso olhar. Supomos assim ser menores do que o cinema, que nos faz maiores, e maiores do que a televisão, que nos faz menores. O poder do  maior é o de nos conter, o do menor é o de nos concentrar”.  (pg 136). Outra observação importante de Márcia: os filósofos que pensaram o surgimento da imagem em movimento não sabiam ainda do que viria, as câmeras individuais e o YouTube, por exemplo, o que concede outras características ao sujeito. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VI



                Enquanto leio OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi, vou tentando imaginar um telespectador ideal. Não gosto muito de ser idealista, mas enfim... volta e meia me descubro assim...
                Um telespectador ideal  seria... alguém que conseguisse regenerar e multiplicar seu olho quando esse olho é comido pela televisão. O olho regenerado e multiplicado será sempre alvo da fome da televisão, por isso ele deve se manter atento... atento a si e à televisão.
                Mas, falemos do livro. Li o capítulo chamado “VIDEODROME  - O VÍDEO E A CARNE”. Bom, se o raciocínio de Márcia Tiburi nesse livro sobre televisão já nos oferece uma visão com um tempero um tanto exótico, imagine um capítulo onde a autora traz à baila o cineasta canadense David Cronenberg, que assina o filme “Videodrome” (1983). Cronenberg, por si só, possui  um gosto pelo tema que eu costumo identificar como a deterioração do corpo. Seus filmes são perturbadores porque ele descobre doenças corpóreas que a gente não imagina. Na verdade, acho que as doenças criadas por Cronenberg não podem ser classificadas como tal, porque ele sugere – pelo menos nos dois filmes seus a que assisti: “A mosca” e “Gêmeos, mórbida semelhança” – uma contemplação da anomalia ao invés da cura...
                Nesse capítulo Márcia vai ao extremo da sua proposta de adotarmos a televisão como um olho artificial. Ela se apoia no filme de Cronenberg para clarear sua teoria  na qual temos “a relação orgânica, o novo corpo, daquele que, sem ser sujeito, permanece sendo corpo” (pag. 115), corpo que se capacita para ser depositário de um discurso.. . Ora, se podemos entender o conhecimento como resultado da nossa sensação do mundo através dos sentidos, então temos que admitir o corpo como instrumento político (Foucault saberia como argumentar sobre isso melhor que ninguém).           
Esse corpo, submetido a uma transformação em máquina (o novo corpo), carrega em si o histórico de captar o mundo pelos sentidos. Mas a máquina, injetada no corpo pensante, contém em si também um pensamento...  alheio ao corpo que recebe a injeção da máquina. Temos aqui um sujeito disforme!... Ou então temos a eliminação do sujeito, já que a realidade produzida para o sujeito pode destruí-lo e já que ele se perde entre a realidade e a alucinação. Não resta dúvida de que Márcia Tiburi quer chamar a atenção para a subjetividade, malograda, do corpo, cujo olho já foi “comido”.

domingo, 5 de agosto de 2012

Olho de Vidro - parte V



                No capítulo “Fome de Olho”, Márcia Tiburi faz uma interessantíssima colocação do conceito de inveja, para dar continuidade ao argumento da atratividade da televisão. Vejamos se consigo resumir aqui essa ideia um tanto complexa.  Márcia explica que “Ver nos dá uma informação exterior sobre a coisa. A inveja é o contrário.” (pg 106). A inveja consiste em querer comer  o que é visto, no sentido de que o que é visto apresenta objetos que serão divididos entre o que será tomado para mim e o que será descartado, jogado fora.  A Invidia seria o excesso do ver.
                A ação de tomar para si está muito próxima da ação da eliminação. A inveja é a confusão entre devorar e eliminar aquilo que quero devorar. Ou devorar aquilo que quero eliminar.
                Desse processo apossou-se a tecnologia, que cuida de oferecer ao olho o que ofereceria a um olho artificial: um objeto programado para ser devorado.  O olho artificial – o olho de vidro – é observador e observado ao mesmo tempo.
                Ao que parece a teoria quer nos fazer crer numa ação televisiva enquanto isolamento do ver-total. O que chamo de ver-total é o que nossos olhos veem fora do propósito televisivo, embora eu concorde que nosso olhar, alheio à televisão, ainda carrega em si componentes do olho de vidro, pois nossa cultura não sobrevive sem a televisão. “Quando falamos de televisão não se trata de uma caixa preta no sentido da fotografia, mas muito mais a caixa de Pandora do Espetáculo” (pg 110).
                Estamos nos aproximando, assim, do que quero “devorar”: a política por trás do aparelho de TV. Pois o que parece meio óbvio ganha mais força quando sustentado por uma observação filosófica. Assim acredito...
                O capítulo ainda não acabou. Tenho que continuar lendo... No momento em que estou parando Márcia fala da decisão de ver do sujeito. E que tal decisão é paralisada pela televisão. Acho que estamos diante de uma batalha que envolve câmera e tela.   
                

segunda-feira, 23 de julho de 2012

olho de vidro - parte IV


Dando continuidade ao capítulo “Mirabilia”, do livro OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi, vamos entendendo a dimensão do poder que uma imagem exerce no olhar ao cativá-lo pelo fascínio.  Ao mirar um objeto, consequentemente passo por uma construção, uma afirmação. A televisão, enquanto momento técnico na história do olhar, promove essa afirmação segundo  seu método.
            Vou me permitir uma ironia, uma brincadeira: Este capítulo é até agora o que mais me fascina...
Por uma razão simples: aqui a teoria vem de encontro a uma questão que há anos me inquieta. Quando penso no processo histórico da dessacralização (processo no qual o sagrado deu lugar à razão), inevitavelmente penso na manutenção política à energia que antes se destinava ao sagrado. Acredito que o sistema de articulação pensar-sentir (que talvez corresponda àquilo que Márcia cita como uma “lógica do olhar”), possa ter sofrido um desvio, um desvio de direção, mas não de natureza...  O que antes era reserva para o sentimento religioso, no sentido da glorificação pela admissão do “ser superior”, talvez possa ter cedido essa energia para o mesmo mecanismo onde, no lugar do divino e da magia, se posicionou o incrível. Assim, para posto do incrível foi sendo eleito aquilo que conseguisse garantir a permanência da reserva emocional que se legitima quando em proporção de massa.
Mas voltemos a Márcia Tiburi...   No método atual, no método técnico, essa manutenção do desejo (ou aquilo que chamei de energia), a televisão providencia o sentimento de verdade... O olho se prende à imagem proporcionada pela televisão porque ela lhe oferece a ideia do real na qualidade de um real desejado, logo, uma alucinação, no modo exposto por Freud em “Luto e Melancolia”.  Nesse trabalho Freud define a melancolia como uma perda parecida com o luto (absorção do Eu onde a perda é consciente), porém mais enigmática e inconsciente porque nela o Eu passa por um processo de empobrecimento e esvaziamento.  Portanto, eu diria que  Márcia nos informa o caráter patológico do ver-televisão. O olho deseja e busca algo que preencha o vazio do rosto, aquela cavidade onde ele, o olho,  deveria se instalar. Mas esse olho construído para ocupar um vazio, por ser um olho de vidro, artificial, requer uma imagem que também corresponda ao  real, porém um real construído, artificial, mais apropriado ao desejo de quem olha.  Lembrando Giorgio Agamben em “Homo Sacer, O Poder Soberano e a Vida Nua”, Márcia diz que “A atitude do telespectador diante dela (a televisão) – e sob seu regime – não poderia ser outra do que a do melancólico” (pg 97).
O fato é que essa alucinação televisiva consiste na relação do olhar com o visível. Mas essa relação ainda está, para mim, um pouco tumultuada. Espero que nas próximas páginas Márcia me esclareça algumas coisas, principalmente as coisas relacionadas ao sujeito e ao objeto dentro dessa relação. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

olho de vidro - parte III


                No capítulo Mirabilia, do livro “Olho de Vidro”, Márcia Tiburi nos conduz à reflexão da imagem enquanto fenômeno, aquilo como aparece a uma consciência. E que, nesse sentido, a imagem televisiva teria o caráter de fantasmagoria ou inconsciência. Se a consciência filosófica quer conhecer a imagem enquanto geradora de efeitos (o que lhe permitiria obter domínio sobre ela, tal como Perseu vence a Medusa fazendo-a ver sua própria imagem), a inconsciência televisiva faz-se condição para o que comporta o chamado regime dos sentidos. O foco seria a “relação que define uma potência da imagem entre a coisa vista e o visível” (pg 91) e na história do domínio da imagem vem cumprindo o papel de registrar – ou seria eleger - as imagens determinadas para atrair atenção. A televisão, portanto, surge como uma nova etapa dessa história que remonta às imagens expressas nas cavernas e atravessa a pintura, a fotografia, o cinema.
Logo, a política na qual a televisão está inserida não é recente, não é extraordinária, mas existe desde que existe o fascínio pela imagem. A televisão apenas abre uma etapa de superespecialização desse poder.
No próximo momento, mais notas sobre esse capítulo.