sábado, 22 de dezembro de 2012
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
OLHO DE VIDRO - parte VIII
Segue
aqui o comentário de mais um capítulo da parte TELA do livro OLHO DE VIDRO, de
Márcia Tiburi. O capítulo intitula-se: “Medusa e máscara”.
Márcia
acentua sua argumentação sobre a morte do sujeito frente à televisão. Aqui ela
está tratando da busca de um sujeito do conhecimento. O sujeito do conhecimento
quer captar o real, mas ao olhar para a tela da TV na ânsia de ver o real
depara-se com uma máscara, a prótese do conhecer. Existe algo atrás da tela que
é o objeto da busca do sujeito, ou telespectador mascarado de sujeito. Existe
uma ilusão de que o que há por trás da tela seja o real. Contudo a tela, a
superfície que separa o espectador do objeto a ser visto, possui o domínio
sobre o objeto. A televisão aqui possui o poder da Medusa mitológica, que ao
cruzar seu olhar com o espectador, o transforma em pedra. Essa pedra, agora
podemos entendê-la como a própria audiência coletiva. “Se não há mais algo como
sensibilidade é porque não se pode mais falar de um corpo no sentido em que
conhecemos até aqui e se não há capacidade de reflexão pela consciência
crítica não há mais sujeito” (pg 150).
Perseu,
o herói que vai enfrentar e vencer o poder de Medusa, só alcança a vitória
porque também se faz máscara. Seu sucesso consiste na tarefa de evitar cruzar o
olhar com o monstro. Em outras palavras, ele não pode deixar que seus olhos
sejam aprisionados.
Márcia
demonstra que, no entanto, as imagens que nos cegam – ou nos transformam em
pedra – são parte de nós, já que foram feitas para nós, “já que de nós
surgiram”. A audiência coletiva se conforma com um olhar coletivo da televisão
sobre os telespectadores. Ela nos olha como um mesmo e único espectador; esse
olhar tende, assim, a ser autoritário. Está encerrado o espaço para a ação
cognitiva do indivíduo. A pele-tela que nos separa do objeto se encarrega de
surrupiar a sensibilidade e banir o crítico da sala de TV. Mas como isso
acontece? O texto nos diz da simetria entre a imagem televisiva (que deve
agradar o espectador) e a servidão do espectador ao aparelho. Aqui compreendo
que a Medusa petrifica quem a olha porque não quer ser vista. A
Medusa-Televisão, por sua vez, petrifica porque - seguindo a reflexão de Márcia
(apoiada por vasta bibliografia) - estabelece-se como deus, “exigência de
adesão”. Esse novo deus dita a simulação do real (máscara) àqueles que se
sentam diante da TV como um rito para conquistar certezas. O sujeito não apenas
morre como se torna objeto do olhar televisivo.
Encerro este comentário observando que, na teledramaturgia brasileira,
assim como em programas variados, raramente se vê a presença de um aparelho de
TV no cenário, a não ser quando num dado momento da narrativa faz-se necessário
a presença dele. Mas de modo geral, mesmo num cenário que represente uma casa
(de qualquer classe), nunca se vê um aparelho de TV presente, contrariando ou
mascarando a realidade, visto que esse eletrodoméstico é comum em grande parte
das casas.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
OLHO DE VIDRO - parte VII
Passamos para
a 2ª. Parte do livro “OLHO DE VIDRO”, de Márcia Tiburi. Essa parte recebe o
título de TELA. E seu primeiro capítulo: “Prótese, Superfície, Tela”.
Nesse primeiro
capítulo Márcia se apoia em Walter Benjamin para nos localizar em seu discurso.
Márcia nos mostra, através de Benjamin, a mudança, o deslocamento que a percepção
sofreu com a introdução da tela de cinema num mundo onde estávamos habituados
com a tela com imagem parada. Houve um choque, uma violência, cuja consequência
é uma alteração radical no espectador. “Podemos interpretar este perigo
existencial como uma nova forma de comportamento em que uma ação causa uma
reação, em que a hiperexcitação não apenas aniquila a capacidade ativa, mas a
torna compulsiva, ou seja, robotizada, não livre”. (pg 129)
O olhar,
dependente agora do movimento, torna-se evento do tempo. O corpo está imóvel. E
imóvel tende a ficar a reflexão enquanto se busca acompanhar o movimento. O espectador, agora telespectador, precisa se
organizar diante de uma prótese da vida, a tela sob a dinâmica da nova técnica
de imagem. Nessa condição, em relação a tela tradicional, o prejuízo do sujeito
é inevitável.
Considerando que
o mundo das imagens é de natureza não só estética mas também política, Márcia
propõe que olhemos para transformação do sujeito que assiste à tela em
movimento: “O sujeito é devolvido a si mesmo como coisa, em certo sentido é
dessubjetivado” (pg 135). Todo o processo começa com a alegação de que o
espectador já não busca o objeto mas é por ele capturado. O objeto se interpõe.
Na medida em que esse processo é de ordem coletiva a cognição é estetizada. O olho
fixo na tela – o ato de tele-ver ou inver – reduz o sujeito que olha em sujeito
protético.
Termino esse
breve resumo com a exposição de Márcia Tiburi sobre os termos “telona” (cinema)
e “telinha” (televisão). “Enquanto a grande tela nos abarca para nos mostrar o
que é maior do que nós mesmos, promovendo distância e crítica, dúvida e
autorreflexão, a pequena tela seria aquilo que abarcamos com nosso olhar. Supomos
assim ser menores do que o cinema, que nos faz maiores, e maiores do que a
televisão, que nos faz menores. O poder do maior é o de nos conter, o do menor é o de nos
concentrar”. (pg 136). Outra observação
importante de Márcia: os filósofos que pensaram o surgimento da imagem em
movimento não sabiam ainda do que viria, as câmeras individuais e o YouTube, por
exemplo, o que concede outras características ao sujeito.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
OLHO DE VIDRO - parte VI
Enquanto
leio OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi, vou tentando imaginar um telespectador
ideal. Não gosto muito de ser idealista, mas enfim... volta e meia me descubro
assim...
Um
telespectador ideal seria... alguém que
conseguisse regenerar e multiplicar seu olho quando esse olho é comido pela
televisão. O olho regenerado e multiplicado será sempre alvo da fome da
televisão, por isso ele deve se manter atento... atento a si e à televisão.
Mas,
falemos do livro. Li o capítulo chamado “VIDEODROME - O VÍDEO E A CARNE”. Bom, se o raciocínio de
Márcia Tiburi nesse livro sobre televisão já nos oferece uma visão com um
tempero um tanto exótico, imagine um capítulo onde a autora traz à baila o
cineasta canadense David Cronenberg, que assina o filme “Videodrome” (1983). Cronenberg,
por si só, possui um gosto pelo tema que
eu costumo identificar como a deterioração do corpo. Seus filmes são
perturbadores porque ele descobre doenças corpóreas que a gente não imagina. Na
verdade, acho que as doenças criadas por Cronenberg não podem ser classificadas
como tal, porque ele sugere – pelo menos nos dois filmes seus a que assisti: “A
mosca” e “Gêmeos, mórbida semelhança” – uma contemplação da anomalia ao invés
da cura...
Nesse
capítulo Márcia vai ao extremo da sua proposta de adotarmos a televisão como um
olho artificial. Ela se apoia no filme de Cronenberg para clarear sua
teoria na qual temos “a relação
orgânica, o novo corpo, daquele que, sem ser sujeito, permanece sendo corpo”
(pag. 115), corpo que se capacita para ser depositário de um discurso.. . Ora,
se podemos entender o conhecimento como resultado da nossa sensação do mundo
através dos sentidos, então temos que admitir o corpo como instrumento político
(Foucault saberia como argumentar sobre isso melhor que ninguém).
Esse corpo, submetido a uma
transformação em máquina (o novo corpo), carrega em si o histórico de captar o
mundo pelos sentidos. Mas a máquina, injetada no corpo pensante, contém em si
também um pensamento... alheio ao corpo
que recebe a injeção da máquina. Temos aqui um sujeito disforme!... Ou então
temos a eliminação do sujeito, já que a realidade produzida para o sujeito pode
destruí-lo e já que ele se perde entre a realidade e a alucinação. Não resta
dúvida de que Márcia Tiburi quer chamar a atenção para a subjetividade, malograda,
do corpo, cujo olho já foi “comido”.
domingo, 5 de agosto de 2012
Olho de Vidro - parte V
No capítulo
“Fome de Olho”, Márcia Tiburi faz uma interessantíssima colocação do conceito
de inveja, para dar continuidade ao argumento da atratividade da televisão. Vejamos
se consigo resumir aqui essa ideia um tanto complexa. Márcia explica que “Ver nos dá uma informação
exterior sobre a coisa. A inveja é o contrário.” (pg 106). A inveja consiste em
querer comer o que é visto, no sentido
de que o que é visto apresenta objetos que serão divididos entre o que será
tomado para mim e o que será descartado, jogado fora. A Invidia
seria o excesso do ver.
A ação
de tomar para si está muito próxima da ação da eliminação. A inveja é a
confusão entre devorar e eliminar aquilo que quero devorar. Ou devorar aquilo
que quero eliminar.
Desse processo
apossou-se a tecnologia, que cuida de oferecer ao olho o que ofereceria a um
olho artificial: um objeto programado para ser devorado. O olho artificial – o olho de vidro – é observador
e observado ao mesmo tempo.
Ao que
parece a teoria quer nos fazer crer numa ação televisiva enquanto isolamento do
ver-total. O que chamo de ver-total é o que nossos olhos veem fora do propósito
televisivo, embora eu concorde que nosso olhar, alheio à televisão, ainda
carrega em si componentes do olho de vidro, pois nossa cultura não sobrevive
sem a televisão. “Quando falamos de televisão não se trata de uma caixa preta
no sentido da fotografia, mas muito mais a caixa de Pandora do Espetáculo” (pg
110).
Estamos
nos aproximando, assim, do que quero “devorar”: a política por trás do aparelho
de TV. Pois o que parece meio óbvio ganha mais força quando sustentado por uma
observação filosófica. Assim acredito...
O capítulo
ainda não acabou. Tenho que continuar lendo... No momento em que estou parando
Márcia fala da decisão de ver do sujeito. E que tal decisão é paralisada pela
televisão. Acho que estamos diante de uma batalha que envolve câmera e tela.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
olho de vidro - parte IV
Dando continuidade ao capítulo “Mirabilia”, do livro OLHO DE
VIDRO, de Márcia Tiburi, vamos entendendo a dimensão do poder que uma imagem
exerce no olhar ao cativá-lo pelo fascínio.
Ao mirar um objeto, consequentemente passo por uma construção, uma
afirmação. A televisão, enquanto momento técnico na história do olhar, promove
essa afirmação segundo seu método.
Vou me
permitir uma ironia, uma brincadeira: Este capítulo é até agora o que mais me fascina...
Por uma razão simples: aqui a
teoria vem de encontro a uma questão que há anos me inquieta. Quando penso no
processo histórico da dessacralização (processo no qual o sagrado deu lugar à
razão), inevitavelmente penso na manutenção política à energia que antes se
destinava ao sagrado. Acredito que o sistema de articulação pensar-sentir (que
talvez corresponda àquilo que Márcia cita como uma “lógica do olhar”), possa
ter sofrido um desvio, um desvio de direção, mas não de natureza... O que antes era reserva para o sentimento
religioso, no sentido da glorificação pela admissão do “ser superior”, talvez
possa ter cedido essa energia para o mesmo mecanismo onde, no lugar do divino e
da magia, se posicionou o incrível. Assim, para posto do incrível foi sendo
eleito aquilo que conseguisse garantir a permanência da reserva emocional que
se legitima quando em proporção de massa.
Mas voltemos a Márcia Tiburi... No
método atual, no método técnico, essa manutenção do desejo (ou aquilo que
chamei de energia), a televisão providencia o sentimento de verdade... O olho
se prende à imagem proporcionada pela televisão porque ela lhe oferece a ideia
do real na qualidade de um real desejado, logo, uma alucinação, no modo exposto
por Freud em “Luto e Melancolia”. Nesse trabalho
Freud define a melancolia como uma perda parecida com o luto (absorção do Eu
onde a perda é consciente), porém mais enigmática e inconsciente porque nela o
Eu passa por um processo de empobrecimento e esvaziamento. Portanto, eu diria que Márcia nos informa o caráter patológico do
ver-televisão. O olho deseja e busca algo que preencha o vazio do rosto, aquela
cavidade onde ele, o olho, deveria se
instalar. Mas esse olho construído para ocupar um vazio, por ser um olho de
vidro, artificial, requer uma imagem que também corresponda ao real, porém um real construído, artificial,
mais apropriado ao desejo de quem olha. Lembrando
Giorgio Agamben em “Homo Sacer, O Poder Soberano e a Vida Nua”, Márcia diz que “A
atitude do telespectador diante dela (a televisão) – e sob seu regime – não poderia
ser outra do que a do melancólico” (pg 97).
O fato é que essa alucinação
televisiva consiste na relação do olhar com o visível. Mas essa relação ainda
está, para mim, um pouco tumultuada. Espero que nas próximas páginas Márcia me
esclareça algumas coisas, principalmente as coisas relacionadas ao sujeito e ao
objeto dentro dessa relação.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
olho de vidro - parte III
No
capítulo Mirabilia, do livro “Olho de Vidro”, Márcia Tiburi nos conduz à
reflexão da imagem enquanto fenômeno, aquilo como aparece a uma consciência. E
que, nesse sentido, a imagem televisiva teria o caráter de fantasmagoria ou
inconsciência. Se a consciência filosófica quer conhecer a imagem enquanto
geradora de efeitos (o que lhe permitiria obter domínio sobre ela, tal como
Perseu vence a Medusa fazendo-a ver sua própria imagem), a inconsciência
televisiva faz-se condição para o que comporta o chamado regime dos sentidos. O
foco seria a “relação que define uma potência da imagem entre a coisa vista e o
visível” (pg 91) e na história do domínio da imagem vem cumprindo o papel de
registrar – ou seria eleger - as imagens determinadas para atrair atenção. A televisão,
portanto, surge como uma nova etapa dessa história que remonta às imagens
expressas nas cavernas e atravessa a pintura, a fotografia, o cinema.
Logo, a política na qual a
televisão está inserida não é recente, não é extraordinária, mas existe desde
que existe o fascínio pela imagem. A televisão apenas abre uma etapa de
superespecialização desse poder.
No próximo momento, mais notas
sobre esse capítulo.
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