sábado, 22 de dezembro de 2012

Yoñlu


Enquanto interrompo a leitura do livro da Márcia Tiburi - por preguiça mas também por ter outras prioridades de leituras - vou postar aqui as impressões sobre um CD de um músico do Rio Grande do Sul, que infelizmente já é falecido. 

Preciso esclarecer que meu ouvido é mais literário do que musical. Aliás eu não tenho conhecimento nenhum de música a não ser como apreciadora do trabalho de alguns artistas como Peter Gabriel, desde os tempos de Genesis, e talvez um pouco da MPB.
Vou escrever alguma coisa sobre as seguintes faixas (que estão nos dois CDs lançados postumamente): “Q-tip”, “Humiliation”, “I know what it’s like”, “Mecânica Celeste Aplicada(Luana)” , “Waterfall” e “Tiger”.

“Q-tip”. É uma música que chama atenção com suas cordas inofensivas que parecem nos conduzir para uma poesia musicada também inofensiva, mas... eis que surge no meio caminho um ruído... uma recorte de televisão, uma apresentação televisiva banal desses que assistimos todos os dias na TV, um locutor que deve apresentar as previsões meteorológicas e que está num dia péssimo e se atrapalha todo durante a locução do clima. Enquanto assistimos o homem do tempo se apavorar com seu trabalho, voltam as cordas, que agora caminham para um tom impiedoso, pesado, anunciante de um desfecho trágico de uma história que sequer tivemos chance de conhecer direito. Surgem gritos, gemidos, talvez uma morte. Não sabemos... (pelo menos eu não soube identificar). Parece que tudo é apenas televisão. Terminamos a audição com apenas uma certeza: estivemos reféns daquelas cordas, daquela melodia agradável e daquela estratégia, por alguns minutos... e nem nos demos conta disso.

“Humiliation”. Voz e violão, isso é tudo. E uma letra que expresse com harmonia toda a dor de ter que atravessar o inferno. E uma melodia que pergunta o sentido desse inferno. O próprio poeta responde da profundeza do seu infortúnio...
Mas se Dante visitou o inferno apoiado e guiado por seu mestre Virgílio, por que não fazer o mesmo, na companhia de um mestre também? Yoñlu tinha vários: João Gilberto, Caetano Veloso, Thom Yorke, Vitor Ramil, John Frusciante. Vê-se que eles estiveram presentes durante essa dolorosa travessia.

“I know what it’s like”. Parece um chamado, mas a voz demonstra algo como um relaxamento (embora a letra da música informe o contrário). Não nos detemos diretamente no pedido de socorro porque todo o ritmo tem algo de doce e leveza típica da MPB. O violão perambula por ruas ainda seguras e temos a certeza de dias bons. Mas a poesia grita. Grita numa voz suave a meio nasal (que a mim lembra um pouco Bob Dylan), que insiste em convencer que está tudo bem com o poeta.
Não, ele não está nada bem. A palavra não deixa dúvida: o poeta sofre e brinca de não sofrer para sobreviver. Dedilha o violão como um menino crescido nas rodas de boêmios, embora, na realidade, nunca tenha o hábito de sair para a boemia. A boemia parece-lhe um sonho. Eis o panorama que Yoñlu pinta nessa música e nessa poesia grandiosa, grave e coesa.

“Mecânica Celeste Aplicada (Luana)”. Mais uma vez sou atraída mais pelas palavras do que pelo ritmo. É vício de escritora... Nessa música, mais uma vez, Yoñlu nos engana com a leveza e com a suavidade de um ritmo, para nos mergulhar numa poesia crua. “O sol vê tudo” mas não vê o essencial. Eis a marca, talvez, de um momento dramático, pulsante, definitivo de Yoñlu. Ele sente que, por gostar de alguém, talvez possa viver a realidade, talvez possa assumir-se Vinícius. Mas a identidade que criara para se proteger do mundo está estabelecida. É difícil sair desse castelo, sobretudo para a noite, para a lua, para Luana. Assim, faz-se necessário observar o sol, que também não pode beijar a lua e permanece – como diria a poetisa Mara Senna – seu namorado eterno.
Mas essa eternidade dói demais. Ao mesmo tempo em que se coloca no lugar do sol, o poeta revela sua fragilidade diante do namoro não vivido, não declarado, não consumado.

“Waterfall”. Nas coisas que li aqui e ali na internet sobre Yoñlu, eu soube que um de seus sinais de bom humor era uma mania engraçada de, ao final de uma aula, perguntar ao professor “Mas e a relação com a água?”... A brincadeira agradava a classe e garantia ao adolescente deslocado uma imagem simpática perante os colegas. Mas acima dessa estratégia de sobrevivência psico-escolar podemos ver, na relação com água, algo mais profundo de Yoñlu: a questão da vida. Isso me parece claro nessa música que agrega violões pulsantes, vocais clamorosos como em prece - ainda que sem palavra - emergências sonoras dando sinais de algo lindo que virá. E vem. Temos batidas eletrônicas em ritmo cardíaco, acrescentadas de mais vozes vitais e contínuas que levam a um derramar abundante de água clara e pura.

“Tiger”. Deixei essa música para o final porque ela é a que mais me incomoda. Mas o incômodo é algo bom, magnífico, precioso, pois nos permite sair do banal. Sim, no que depender de nós, toda inquietação será despida!
Em alguns comentários que pude garimpar na internet, percebi que essa canção tanto pode ser adorada quanto odiada. Mas assim como qualquer obra que se encontra nessa súmula, “Tiger” é impossível de passar despercebida. É impossível ficar indiferente frente a uma música tão provocativa.
Em primeiro lugar Yoñlu faz aqui uma homenagem ao cinema ao se referir à saga de King Kong usando, porém, um tigre no lugar do animal herói. Essa comunicação me pareceu muito bem vinda porque traz à luz uma preciosidade do seu temperamento. O jovem músico, que gostava de gatos, humaniza um tigre na mesma medida em que animaliza o homem. Coisas de gênio!...
Como ele animaliza o homem? Simples: no meio da música Yoñlu implanta uns poucos segundos de uma fala em inglês de trás para frente. Sobre essa fala – incompreensível – ele sobrepõe algumas palavras dele em português que não informam nada de interessante, apenas alguns detalhes da gravação. E nós nos sentimos movidos a rodar a música no sentido inverso para saber o que foi dito no fragmento gravado de trás para frente. É assim que ele animaliza o homem: provocando sua curiosidade, sua racionalidade... exigindo que o homem se lembre do mito bíblico de Babel, quando Deus confundiu as línguas como castigo pela prepotência da humanidade. Temos então um ser humano impotente (desejando entender o desconhecido) e um tigre agindo com inteligência (ao convencer um ser humano fêmea de que a civilização não é tão bacana assim).
Mas além disso, do ponto de vista musical, quero chamar a atenção para a capacidade de Yoñlu costurar retalhos musicais. Imagino que construir numa única música um conjunto de ritmos seja uma tarefa ousada. Em “Tiger” os ritmos se alteram com precisão cirúrgica, conduzindo os ânimos do ouvinte sem que ele perca o chão (e se mantenha preso à música). Essa precisão eu já tinha ouvido em outra música de Yoñlu, “Yonner mix”, que eu garimpei na internet e que não está presente em nenhum dos dois CDs do músico. Enfim, fazer mistura é uma arte... É preciso misturar sem chocar ou repudiar aquele que vai provar a mistura. Ao contrário, a boa mistura seduz, atrai, domina.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VIII


Segue aqui o comentário de mais um capítulo da parte TELA do livro OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi. O capítulo intitula-se: “Medusa e máscara”.
Márcia acentua sua argumentação sobre a morte do sujeito frente à televisão. Aqui ela está tratando da busca de um sujeito do conhecimento. O sujeito do conhecimento quer captar o real, mas ao olhar para a tela da TV na ânsia de ver o real depara-se com uma máscara, a prótese do conhecer. Existe algo atrás da tela que é o objeto da busca do sujeito, ou telespectador mascarado de sujeito. Existe uma ilusão de que o que há por trás da tela seja o real. Contudo a tela, a superfície que separa o espectador do objeto a ser visto, possui o domínio sobre o objeto. A televisão aqui possui o poder da Medusa mitológica, que ao cruzar seu olhar com o espectador, o transforma em pedra. Essa pedra, agora podemos entendê-la como a própria audiência coletiva. “Se não há mais algo como sensibilidade é porque não se pode mais falar de um corpo no sentido em que conhecemos até aqui e se não há capacidade de reflexão pela consciência crítica  não há mais sujeito” (pg 150).
Perseu, o herói que vai enfrentar e vencer o poder de Medusa, só alcança a vitória porque também se faz máscara. Seu sucesso consiste na tarefa de evitar cruzar o olhar com o monstro. Em outras palavras, ele não pode deixar que seus olhos sejam aprisionados.
Márcia demonstra que, no entanto, as imagens que nos cegam – ou nos transformam em pedra – são parte de nós, já que foram feitas para nós, “já que de nós surgiram”. A audiência coletiva se conforma com um olhar coletivo da televisão sobre os telespectadores. Ela nos olha como um mesmo e único espectador; esse olhar tende, assim, a ser autoritário. Está encerrado o espaço para a ação cognitiva do indivíduo. A pele-tela que nos separa do objeto se encarrega de surrupiar a sensibilidade e banir o crítico da sala de TV. Mas como isso acontece? O texto nos diz da simetria entre a imagem televisiva (que deve agradar o espectador) e a servidão do espectador ao aparelho. Aqui compreendo que a Medusa petrifica quem a olha porque não quer ser vista. A Medusa-Televisão, por sua vez, petrifica porque - seguindo a reflexão de Márcia (apoiada por vasta bibliografia) - estabelece-se como deus, “exigência de adesão”. Esse novo deus dita a simulação do real (máscara) àqueles que se sentam diante da TV como um rito para conquistar certezas. O sujeito não apenas morre como se torna objeto do olhar televisivo.

Encerro este comentário  observando que, na teledramaturgia brasileira, assim como em programas variados, raramente se vê a presença de um aparelho de TV no cenário, a não ser quando num dado momento da narrativa faz-se necessário a presença dele. Mas de modo geral, mesmo num cenário que represente uma casa (de qualquer classe), nunca se vê um aparelho de TV presente, contrariando ou mascarando a realidade, visto que esse eletrodoméstico é comum em grande parte das casas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VII


Passamos para a 2ª. Parte do livro “OLHO DE VIDRO”, de Márcia Tiburi. Essa parte recebe o título de TELA. E seu primeiro capítulo: “Prótese, Superfície, Tela”.
Nesse primeiro capítulo Márcia se apoia em Walter Benjamin para nos localizar em seu discurso. Márcia nos mostra, através de Benjamin, a mudança, o deslocamento que a percepção sofreu com a introdução da tela de cinema num mundo onde estávamos habituados com a tela com imagem parada. Houve um choque, uma violência, cuja consequência é uma alteração radical no espectador. “Podemos interpretar este perigo existencial como uma nova forma de comportamento em que uma ação causa uma reação, em que a hiperexcitação não apenas aniquila a capacidade ativa, mas a torna compulsiva, ou seja, robotizada, não livre”. (pg 129)
O olhar, dependente agora do movimento, torna-se evento do tempo. O corpo está imóvel. E imóvel tende a ficar a reflexão enquanto se busca acompanhar o movimento.  O espectador, agora telespectador, precisa se organizar diante de uma prótese da vida, a tela sob a dinâmica da nova técnica de imagem. Nessa condição, em relação a tela tradicional, o prejuízo do sujeito é inevitável.
Considerando que o mundo das imagens é de natureza não só estética mas também política, Márcia propõe que olhemos para transformação do sujeito que assiste à tela em movimento: “O sujeito é devolvido a si mesmo como coisa, em certo sentido é dessubjetivado” (pg 135). Todo o processo começa com a alegação de que o espectador já não busca o objeto mas é por ele capturado. O objeto se interpõe. Na medida em que esse processo é de ordem coletiva a cognição é estetizada. O olho fixo na tela – o ato de tele-ver  ou  inver – reduz o sujeito que olha em sujeito protético.
Termino esse breve resumo com a exposição de Márcia Tiburi sobre os termos “telona” (cinema) e “telinha” (televisão). “Enquanto a grande tela nos abarca para nos mostrar o que é maior do que nós mesmos, promovendo distância e crítica, dúvida e autorreflexão, a pequena tela seria aquilo que abarcamos com nosso olhar. Supomos assim ser menores do que o cinema, que nos faz maiores, e maiores do que a televisão, que nos faz menores. O poder do  maior é o de nos conter, o do menor é o de nos concentrar”.  (pg 136). Outra observação importante de Márcia: os filósofos que pensaram o surgimento da imagem em movimento não sabiam ainda do que viria, as câmeras individuais e o YouTube, por exemplo, o que concede outras características ao sujeito. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VI



                Enquanto leio OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi, vou tentando imaginar um telespectador ideal. Não gosto muito de ser idealista, mas enfim... volta e meia me descubro assim...
                Um telespectador ideal  seria... alguém que conseguisse regenerar e multiplicar seu olho quando esse olho é comido pela televisão. O olho regenerado e multiplicado será sempre alvo da fome da televisão, por isso ele deve se manter atento... atento a si e à televisão.
                Mas, falemos do livro. Li o capítulo chamado “VIDEODROME  - O VÍDEO E A CARNE”. Bom, se o raciocínio de Márcia Tiburi nesse livro sobre televisão já nos oferece uma visão com um tempero um tanto exótico, imagine um capítulo onde a autora traz à baila o cineasta canadense David Cronenberg, que assina o filme “Videodrome” (1983). Cronenberg, por si só, possui  um gosto pelo tema que eu costumo identificar como a deterioração do corpo. Seus filmes são perturbadores porque ele descobre doenças corpóreas que a gente não imagina. Na verdade, acho que as doenças criadas por Cronenberg não podem ser classificadas como tal, porque ele sugere – pelo menos nos dois filmes seus a que assisti: “A mosca” e “Gêmeos, mórbida semelhança” – uma contemplação da anomalia ao invés da cura...
                Nesse capítulo Márcia vai ao extremo da sua proposta de adotarmos a televisão como um olho artificial. Ela se apoia no filme de Cronenberg para clarear sua teoria  na qual temos “a relação orgânica, o novo corpo, daquele que, sem ser sujeito, permanece sendo corpo” (pag. 115), corpo que se capacita para ser depositário de um discurso.. . Ora, se podemos entender o conhecimento como resultado da nossa sensação do mundo através dos sentidos, então temos que admitir o corpo como instrumento político (Foucault saberia como argumentar sobre isso melhor que ninguém).           
Esse corpo, submetido a uma transformação em máquina (o novo corpo), carrega em si o histórico de captar o mundo pelos sentidos. Mas a máquina, injetada no corpo pensante, contém em si também um pensamento...  alheio ao corpo que recebe a injeção da máquina. Temos aqui um sujeito disforme!... Ou então temos a eliminação do sujeito, já que a realidade produzida para o sujeito pode destruí-lo e já que ele se perde entre a realidade e a alucinação. Não resta dúvida de que Márcia Tiburi quer chamar a atenção para a subjetividade, malograda, do corpo, cujo olho já foi “comido”.

domingo, 5 de agosto de 2012

Olho de Vidro - parte V



                No capítulo “Fome de Olho”, Márcia Tiburi faz uma interessantíssima colocação do conceito de inveja, para dar continuidade ao argumento da atratividade da televisão. Vejamos se consigo resumir aqui essa ideia um tanto complexa.  Márcia explica que “Ver nos dá uma informação exterior sobre a coisa. A inveja é o contrário.” (pg 106). A inveja consiste em querer comer  o que é visto, no sentido de que o que é visto apresenta objetos que serão divididos entre o que será tomado para mim e o que será descartado, jogado fora.  A Invidia seria o excesso do ver.
                A ação de tomar para si está muito próxima da ação da eliminação. A inveja é a confusão entre devorar e eliminar aquilo que quero devorar. Ou devorar aquilo que quero eliminar.
                Desse processo apossou-se a tecnologia, que cuida de oferecer ao olho o que ofereceria a um olho artificial: um objeto programado para ser devorado.  O olho artificial – o olho de vidro – é observador e observado ao mesmo tempo.
                Ao que parece a teoria quer nos fazer crer numa ação televisiva enquanto isolamento do ver-total. O que chamo de ver-total é o que nossos olhos veem fora do propósito televisivo, embora eu concorde que nosso olhar, alheio à televisão, ainda carrega em si componentes do olho de vidro, pois nossa cultura não sobrevive sem a televisão. “Quando falamos de televisão não se trata de uma caixa preta no sentido da fotografia, mas muito mais a caixa de Pandora do Espetáculo” (pg 110).
                Estamos nos aproximando, assim, do que quero “devorar”: a política por trás do aparelho de TV. Pois o que parece meio óbvio ganha mais força quando sustentado por uma observação filosófica. Assim acredito...
                O capítulo ainda não acabou. Tenho que continuar lendo... No momento em que estou parando Márcia fala da decisão de ver do sujeito. E que tal decisão é paralisada pela televisão. Acho que estamos diante de uma batalha que envolve câmera e tela.   
                

segunda-feira, 23 de julho de 2012

olho de vidro - parte IV


Dando continuidade ao capítulo “Mirabilia”, do livro OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi, vamos entendendo a dimensão do poder que uma imagem exerce no olhar ao cativá-lo pelo fascínio.  Ao mirar um objeto, consequentemente passo por uma construção, uma afirmação. A televisão, enquanto momento técnico na história do olhar, promove essa afirmação segundo  seu método.
            Vou me permitir uma ironia, uma brincadeira: Este capítulo é até agora o que mais me fascina...
Por uma razão simples: aqui a teoria vem de encontro a uma questão que há anos me inquieta. Quando penso no processo histórico da dessacralização (processo no qual o sagrado deu lugar à razão), inevitavelmente penso na manutenção política à energia que antes se destinava ao sagrado. Acredito que o sistema de articulação pensar-sentir (que talvez corresponda àquilo que Márcia cita como uma “lógica do olhar”), possa ter sofrido um desvio, um desvio de direção, mas não de natureza...  O que antes era reserva para o sentimento religioso, no sentido da glorificação pela admissão do “ser superior”, talvez possa ter cedido essa energia para o mesmo mecanismo onde, no lugar do divino e da magia, se posicionou o incrível. Assim, para posto do incrível foi sendo eleito aquilo que conseguisse garantir a permanência da reserva emocional que se legitima quando em proporção de massa.
Mas voltemos a Márcia Tiburi...   No método atual, no método técnico, essa manutenção do desejo (ou aquilo que chamei de energia), a televisão providencia o sentimento de verdade... O olho se prende à imagem proporcionada pela televisão porque ela lhe oferece a ideia do real na qualidade de um real desejado, logo, uma alucinação, no modo exposto por Freud em “Luto e Melancolia”.  Nesse trabalho Freud define a melancolia como uma perda parecida com o luto (absorção do Eu onde a perda é consciente), porém mais enigmática e inconsciente porque nela o Eu passa por um processo de empobrecimento e esvaziamento.  Portanto, eu diria que  Márcia nos informa o caráter patológico do ver-televisão. O olho deseja e busca algo que preencha o vazio do rosto, aquela cavidade onde ele, o olho,  deveria se instalar. Mas esse olho construído para ocupar um vazio, por ser um olho de vidro, artificial, requer uma imagem que também corresponda ao  real, porém um real construído, artificial, mais apropriado ao desejo de quem olha.  Lembrando Giorgio Agamben em “Homo Sacer, O Poder Soberano e a Vida Nua”, Márcia diz que “A atitude do telespectador diante dela (a televisão) – e sob seu regime – não poderia ser outra do que a do melancólico” (pg 97).
O fato é que essa alucinação televisiva consiste na relação do olhar com o visível. Mas essa relação ainda está, para mim, um pouco tumultuada. Espero que nas próximas páginas Márcia me esclareça algumas coisas, principalmente as coisas relacionadas ao sujeito e ao objeto dentro dessa relação. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

olho de vidro - parte III


                No capítulo Mirabilia, do livro “Olho de Vidro”, Márcia Tiburi nos conduz à reflexão da imagem enquanto fenômeno, aquilo como aparece a uma consciência. E que, nesse sentido, a imagem televisiva teria o caráter de fantasmagoria ou inconsciência. Se a consciência filosófica quer conhecer a imagem enquanto geradora de efeitos (o que lhe permitiria obter domínio sobre ela, tal como Perseu vence a Medusa fazendo-a ver sua própria imagem), a inconsciência televisiva faz-se condição para o que comporta o chamado regime dos sentidos. O foco seria a “relação que define uma potência da imagem entre a coisa vista e o visível” (pg 91) e na história do domínio da imagem vem cumprindo o papel de registrar – ou seria eleger - as imagens determinadas para atrair atenção. A televisão, portanto, surge como uma nova etapa dessa história que remonta às imagens expressas nas cavernas e atravessa a pintura, a fotografia, o cinema.
Logo, a política na qual a televisão está inserida não é recente, não é extraordinária, mas existe desde que existe o fascínio pela imagem. A televisão apenas abre uma etapa de superespecialização desse poder.
No próximo momento, mais notas sobre esse capítulo.