terça-feira, 9 de julho de 2013

CINCO MINUTOS

De 06 a 16 de junho aconteceu a 13a. Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto.
No estande de Autores Locais e Regionais foi criado um espaço para apresentações, palestras ou qualquer coisa que escritores locais quisessem fazer. Então me veio a ideia de realizar uma performance com base no meu livro ATO PENITENCIAL, que faz referência ao mito de Fausto. Como na Feira desta edição o país homenageado era a Alemanha eu vi a oportunidade de inventar alguma coisa sobre o ATO e sobre Fausto (de origem alemã). Minha apresentação foi marcada para 15/06.

Bom, criei uma personagem, imaginei um figurino e fui procurar algo parecido nas lojas; enquanto isso, escrevi o texto e ensaiei. Pelos cálculos a performance não duraria mais do que 5 minutos. (era o máximo que suportaria como centro das atenções, já que não sou atriz e tenho fobia de falar em público, mesmo estando entre amigos).

Foi por causa de um personagem que existiria  por apenas 5 minutos, que eu me sujeitei a perder 10 quilos. Comecei uma dieta no início de junho na vã esperança de perder todos esses quilos em poucos dias. Claro que não deu certo... mesmo eu publicando a dieta diária aqui no blog, como forma de me sentir vigiada...

De qualquer forma, realizei a apresentação. Não saiu nada, nada igual ao que eu havia ensaiado (sozinha). Mesmo que eu estivesse super magra e esbelta, o showzinho não valeria a pena.

Mas fiquei contente comigo, por vencer fobias, por deixar a literatura falar mais alto do que tudo.







quinta-feira, 9 de maio de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O QUE ANDO ESCREVENDO...


Já tenho comentado com alguns amigos sobre meu novo livro (que talvez esteja na metade ou próximo do fim, não sei). Nas vezes que converso - verbalmente - sobre esse livro sinto um estranhamento porque, ao tentar explicar aos meus amigos como ele está sendo escrito, percebo uma dificuldade (ou resistência) em introduzi-lo na Literatura. Posso afirmar, com certeza, que se trata de uma ficção. Posso dizer que, de alguma forma, se trata de uma narrativa fictícia onde há personagens, um protagonista, espaço, tempo... Mas ao mesmo tempo estou lidando com personagens, espaço e tempo contemplados por um outro "mundo", por um outro plano, onde há contagem cronológica, mas não há espaço geométrico e onde os personagens já não atuam na "história". São meros espectadores. Eles podem apenas comentar sobre a história assistida, mas não possuem o poder da ação e portanto não podem interferir no que já está dado. Além disso, esses personagens-espectadores, na sua grande maioria, não são identificados um pelo outro. Os comentários que emitem podem ser compartilhados por todos mas apenas enquanto palavra escrita. Não há rostos, não há vozes, não se percebe a emoção na fala porque não há palavra falada. Em resumo, o livro tem como tema geral a Internet...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

OLHO DE VIDRO - parte IX

Mais um capítulo de OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi. Ela o intitulou de “Estado de Sítio ou Diante da Lei da Opacidade”.
Este capítulo é, talvez, aquele em que Márcia mais se aproxima de uma contextualização jurídica ou legal da Televisão. O termo “estado de exceção” (que faz parte do subtítulo do livro: “A televisão e o estado de exceção da imagem”), quer atribuir à imagem televisiva um papel análogo à fronteira entre política e direito. Esse termo trata do ponto de vista jurídico/político, trata da suspensão do vivente enquanto sujeito. Na verdade está-se fazendo uma comparação da Televisão com a ordem militar “O telespectador precisa ser pensado a partir da condição biopolítica que ocupa com seu corpo dócil diante do aparelho que cativa sua percepção” (pg 156). Márcia conduz a tese no sentido de que Televisão “decreta um estado de percepção a que convencionamos chamar de realidade”.  Aí está seu estatuto de coisa instaurada, admitida como ordem ou norma, enfim, como realidade: o poder místico da imagem.
Contudo, a autora admite que, apesar da interferência dessa potência da imagem sobre o sujeito, o olhar ainda mantém seus atributos que, em conexão à força do objeto, se constrói numa dialética onde “a televisão é o totalmente visto que jamais é realmente visto porque ela impossibilita que se veja” (pg 162). Nesse ponto Márcia nos conta que Giorgio Agamben foi quem percebeu a semelhança da lei no conto “Diante da Lei”, de Franz Kafka, com a função da Televisão, pois tal como no conto, a televisão não exige nada, não impõe nada, está simplesmente aberta; cabe ao telespectador (tal qual o camponês do conto) entrar e viver as consequências.  
Encerro este trecho fazendo uma observação sobre a analogia feita por Márcia neste capítulo. No conto “Diante da Lei”, de Kafka, todo o sabor pungente da narrativa está concentrado no diálogo entre o sentinela e o camponês, no qual o primeiro nega acesso ao segundo, que ao chegar diante da porta da lei pede autorização para entrar. A negação do sentinela se estende sem que se ofereça uma justificativa plausível para tal. A reação do camponês – fiel ao estilo kafkiano – é aguardar pacientemente por dias, meses, anos, apenas intervindo na autoridade do sentinela no sentido de conquistar sua licença para passar. Bom, seguindo a proposta de Márcia Tiburi, ou seja, colocando no lugar da Lei a tela da Televisão, me parece que a função do sentinela torna-se uma espécie de provocação: o telespectador (no papel do passivo camponês), ao pedir licença para entrar, encontra a negação do acesso como uma provocação ou estímulo do seu “desejo de realidade”. Tal desejo não se cumpre porque esbarra numa autoridade (o sentinela) mas se preserva e até se acentua, fazendo com que o telespectador/camponês se mantenha firme na espera. Mas... e essa espera... o que é?  Que construção na vivência pode ocorrer durante essa espera, o período de questionamento sobre a autoridade do obstáculo e a ansiedade pelo acesso? Em Televisão acho que esse processo não comporta uma visão tão simples como proposto por Márcia. A autoridade que bloqueia a passagem ou a adia para “mais tarde”, fazendo com que o solicitante permaneça diante da porta, me parece mais um agente do mundo externo do que propriamente do mundo interno (lei/televisão). Ele oferece a manutenção desse “lado de fora” na medida em que preserva o camponês/telespectador perto de si, numa posição submissa porém isento das consequências do que acontece no lado de dentro, ainda que – como se revela no final do conto – aquela abertura fosse destinada ao solicitante. Contra a realidade almejada pelo solicitante (o lado de dentro), o sentinela oferece uma outra realidade, pautada na obediência da espera pela licença. No contexto da lei, porém, podemos aceitar que o solicitante queira um direito, uma justiça, uma legitimação, um reconhecimento... No contexto da televisão, o solicitante deseja tudo isso mas como prótese. No primeiro caso a autoridade nunca poderá oferecer uma prótese da verdade, porque a lei está somente ali, por trás daquela porta; mas no caso da televisão, o solicitante poderá dispensar a prótese se a realidade do lado de fora se tornar admissível. 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Yoñlu


Enquanto interrompo a leitura do livro da Márcia Tiburi - por preguiça mas também por ter outras prioridades de leituras - vou postar aqui as impressões sobre um CD de um músico do Rio Grande do Sul, que infelizmente já é falecido. 

Preciso esclarecer que meu ouvido é mais literário do que musical. Aliás eu não tenho conhecimento nenhum de música a não ser como apreciadora do trabalho de alguns artistas como Peter Gabriel, desde os tempos de Genesis, e talvez um pouco da MPB.
Vou escrever alguma coisa sobre as seguintes faixas (que estão nos dois CDs lançados postumamente): “Q-tip”, “Humiliation”, “I know what it’s like”, “Mecânica Celeste Aplicada(Luana)” , “Waterfall” e “Tiger”.

“Q-tip”. É uma música que chama atenção com suas cordas inofensivas que parecem nos conduzir para uma poesia musicada também inofensiva, mas... eis que surge no meio caminho um ruído... uma recorte de televisão, uma apresentação televisiva banal desses que assistimos todos os dias na TV, um locutor que deve apresentar as previsões meteorológicas e que está num dia péssimo e se atrapalha todo durante a locução do clima. Enquanto assistimos o homem do tempo se apavorar com seu trabalho, voltam as cordas, que agora caminham para um tom impiedoso, pesado, anunciante de um desfecho trágico de uma história que sequer tivemos chance de conhecer direito. Surgem gritos, gemidos, talvez uma morte. Não sabemos... (pelo menos eu não soube identificar). Parece que tudo é apenas televisão. Terminamos a audição com apenas uma certeza: estivemos reféns daquelas cordas, daquela melodia agradável e daquela estratégia, por alguns minutos... e nem nos demos conta disso.

“Humiliation”. Voz e violão, isso é tudo. E uma letra que expresse com harmonia toda a dor de ter que atravessar o inferno. E uma melodia que pergunta o sentido desse inferno. O próprio poeta responde da profundeza do seu infortúnio...
Mas se Dante visitou o inferno apoiado e guiado por seu mestre Virgílio, por que não fazer o mesmo, na companhia de um mestre também? Yoñlu tinha vários: João Gilberto, Caetano Veloso, Thom Yorke, Vitor Ramil, John Frusciante. Vê-se que eles estiveram presentes durante essa dolorosa travessia.

“I know what it’s like”. Parece um chamado, mas a voz demonstra algo como um relaxamento (embora a letra da música informe o contrário). Não nos detemos diretamente no pedido de socorro porque todo o ritmo tem algo de doce e leveza típica da MPB. O violão perambula por ruas ainda seguras e temos a certeza de dias bons. Mas a poesia grita. Grita numa voz suave a meio nasal (que a mim lembra um pouco Bob Dylan), que insiste em convencer que está tudo bem com o poeta.
Não, ele não está nada bem. A palavra não deixa dúvida: o poeta sofre e brinca de não sofrer para sobreviver. Dedilha o violão como um menino crescido nas rodas de boêmios, embora, na realidade, nunca tenha o hábito de sair para a boemia. A boemia parece-lhe um sonho. Eis o panorama que Yoñlu pinta nessa música e nessa poesia grandiosa, grave e coesa.

“Mecânica Celeste Aplicada (Luana)”. Mais uma vez sou atraída mais pelas palavras do que pelo ritmo. É vício de escritora... Nessa música, mais uma vez, Yoñlu nos engana com a leveza e com a suavidade de um ritmo, para nos mergulhar numa poesia crua. “O sol vê tudo” mas não vê o essencial. Eis a marca, talvez, de um momento dramático, pulsante, definitivo de Yoñlu. Ele sente que, por gostar de alguém, talvez possa viver a realidade, talvez possa assumir-se Vinícius. Mas a identidade que criara para se proteger do mundo está estabelecida. É difícil sair desse castelo, sobretudo para a noite, para a lua, para Luana. Assim, faz-se necessário observar o sol, que também não pode beijar a lua e permanece – como diria a poetisa Mara Senna – seu namorado eterno.
Mas essa eternidade dói demais. Ao mesmo tempo em que se coloca no lugar do sol, o poeta revela sua fragilidade diante do namoro não vivido, não declarado, não consumado.

“Waterfall”. Nas coisas que li aqui e ali na internet sobre Yoñlu, eu soube que um de seus sinais de bom humor era uma mania engraçada de, ao final de uma aula, perguntar ao professor “Mas e a relação com a água?”... A brincadeira agradava a classe e garantia ao adolescente deslocado uma imagem simpática perante os colegas. Mas acima dessa estratégia de sobrevivência psico-escolar podemos ver, na relação com água, algo mais profundo de Yoñlu: a questão da vida. Isso me parece claro nessa música que agrega violões pulsantes, vocais clamorosos como em prece - ainda que sem palavra - emergências sonoras dando sinais de algo lindo que virá. E vem. Temos batidas eletrônicas em ritmo cardíaco, acrescentadas de mais vozes vitais e contínuas que levam a um derramar abundante de água clara e pura.

“Tiger”. Deixei essa música para o final porque ela é a que mais me incomoda. Mas o incômodo é algo bom, magnífico, precioso, pois nos permite sair do banal. Sim, no que depender de nós, toda inquietação será despida!
Em alguns comentários que pude garimpar na internet, percebi que essa canção tanto pode ser adorada quanto odiada. Mas assim como qualquer obra que se encontra nessa súmula, “Tiger” é impossível de passar despercebida. É impossível ficar indiferente frente a uma música tão provocativa.
Em primeiro lugar Yoñlu faz aqui uma homenagem ao cinema ao se referir à saga de King Kong usando, porém, um tigre no lugar do animal herói. Essa comunicação me pareceu muito bem vinda porque traz à luz uma preciosidade do seu temperamento. O jovem músico, que gostava de gatos, humaniza um tigre na mesma medida em que animaliza o homem. Coisas de gênio!...
Como ele animaliza o homem? Simples: no meio da música Yoñlu implanta uns poucos segundos de uma fala em inglês de trás para frente. Sobre essa fala – incompreensível – ele sobrepõe algumas palavras dele em português que não informam nada de interessante, apenas alguns detalhes da gravação. E nós nos sentimos movidos a rodar a música no sentido inverso para saber o que foi dito no fragmento gravado de trás para frente. É assim que ele animaliza o homem: provocando sua curiosidade, sua racionalidade... exigindo que o homem se lembre do mito bíblico de Babel, quando Deus confundiu as línguas como castigo pela prepotência da humanidade. Temos então um ser humano impotente (desejando entender o desconhecido) e um tigre agindo com inteligência (ao convencer um ser humano fêmea de que a civilização não é tão bacana assim).
Mas além disso, do ponto de vista musical, quero chamar a atenção para a capacidade de Yoñlu costurar retalhos musicais. Imagino que construir numa única música um conjunto de ritmos seja uma tarefa ousada. Em “Tiger” os ritmos se alteram com precisão cirúrgica, conduzindo os ânimos do ouvinte sem que ele perca o chão (e se mantenha preso à música). Essa precisão eu já tinha ouvido em outra música de Yoñlu, “Yonner mix”, que eu garimpei na internet e que não está presente em nenhum dos dois CDs do músico. Enfim, fazer mistura é uma arte... É preciso misturar sem chocar ou repudiar aquele que vai provar a mistura. Ao contrário, a boa mistura seduz, atrai, domina.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VIII


Segue aqui o comentário de mais um capítulo da parte TELA do livro OLHO DE VIDRO, de Márcia Tiburi. O capítulo intitula-se: “Medusa e máscara”.
Márcia acentua sua argumentação sobre a morte do sujeito frente à televisão. Aqui ela está tratando da busca de um sujeito do conhecimento. O sujeito do conhecimento quer captar o real, mas ao olhar para a tela da TV na ânsia de ver o real depara-se com uma máscara, a prótese do conhecer. Existe algo atrás da tela que é o objeto da busca do sujeito, ou telespectador mascarado de sujeito. Existe uma ilusão de que o que há por trás da tela seja o real. Contudo a tela, a superfície que separa o espectador do objeto a ser visto, possui o domínio sobre o objeto. A televisão aqui possui o poder da Medusa mitológica, que ao cruzar seu olhar com o espectador, o transforma em pedra. Essa pedra, agora podemos entendê-la como a própria audiência coletiva. “Se não há mais algo como sensibilidade é porque não se pode mais falar de um corpo no sentido em que conhecemos até aqui e se não há capacidade de reflexão pela consciência crítica  não há mais sujeito” (pg 150).
Perseu, o herói que vai enfrentar e vencer o poder de Medusa, só alcança a vitória porque também se faz máscara. Seu sucesso consiste na tarefa de evitar cruzar o olhar com o monstro. Em outras palavras, ele não pode deixar que seus olhos sejam aprisionados.
Márcia demonstra que, no entanto, as imagens que nos cegam – ou nos transformam em pedra – são parte de nós, já que foram feitas para nós, “já que de nós surgiram”. A audiência coletiva se conforma com um olhar coletivo da televisão sobre os telespectadores. Ela nos olha como um mesmo e único espectador; esse olhar tende, assim, a ser autoritário. Está encerrado o espaço para a ação cognitiva do indivíduo. A pele-tela que nos separa do objeto se encarrega de surrupiar a sensibilidade e banir o crítico da sala de TV. Mas como isso acontece? O texto nos diz da simetria entre a imagem televisiva (que deve agradar o espectador) e a servidão do espectador ao aparelho. Aqui compreendo que a Medusa petrifica quem a olha porque não quer ser vista. A Medusa-Televisão, por sua vez, petrifica porque - seguindo a reflexão de Márcia (apoiada por vasta bibliografia) - estabelece-se como deus, “exigência de adesão”. Esse novo deus dita a simulação do real (máscara) àqueles que se sentam diante da TV como um rito para conquistar certezas. O sujeito não apenas morre como se torna objeto do olhar televisivo.

Encerro este comentário  observando que, na teledramaturgia brasileira, assim como em programas variados, raramente se vê a presença de um aparelho de TV no cenário, a não ser quando num dado momento da narrativa faz-se necessário a presença dele. Mas de modo geral, mesmo num cenário que represente uma casa (de qualquer classe), nunca se vê um aparelho de TV presente, contrariando ou mascarando a realidade, visto que esse eletrodoméstico é comum em grande parte das casas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

OLHO DE VIDRO - parte VII


Passamos para a 2ª. Parte do livro “OLHO DE VIDRO”, de Márcia Tiburi. Essa parte recebe o título de TELA. E seu primeiro capítulo: “Prótese, Superfície, Tela”.
Nesse primeiro capítulo Márcia se apoia em Walter Benjamin para nos localizar em seu discurso. Márcia nos mostra, através de Benjamin, a mudança, o deslocamento que a percepção sofreu com a introdução da tela de cinema num mundo onde estávamos habituados com a tela com imagem parada. Houve um choque, uma violência, cuja consequência é uma alteração radical no espectador. “Podemos interpretar este perigo existencial como uma nova forma de comportamento em que uma ação causa uma reação, em que a hiperexcitação não apenas aniquila a capacidade ativa, mas a torna compulsiva, ou seja, robotizada, não livre”. (pg 129)
O olhar, dependente agora do movimento, torna-se evento do tempo. O corpo está imóvel. E imóvel tende a ficar a reflexão enquanto se busca acompanhar o movimento.  O espectador, agora telespectador, precisa se organizar diante de uma prótese da vida, a tela sob a dinâmica da nova técnica de imagem. Nessa condição, em relação a tela tradicional, o prejuízo do sujeito é inevitável.
Considerando que o mundo das imagens é de natureza não só estética mas também política, Márcia propõe que olhemos para transformação do sujeito que assiste à tela em movimento: “O sujeito é devolvido a si mesmo como coisa, em certo sentido é dessubjetivado” (pg 135). Todo o processo começa com a alegação de que o espectador já não busca o objeto mas é por ele capturado. O objeto se interpõe. Na medida em que esse processo é de ordem coletiva a cognição é estetizada. O olho fixo na tela – o ato de tele-ver  ou  inver – reduz o sujeito que olha em sujeito protético.
Termino esse breve resumo com a exposição de Márcia Tiburi sobre os termos “telona” (cinema) e “telinha” (televisão). “Enquanto a grande tela nos abarca para nos mostrar o que é maior do que nós mesmos, promovendo distância e crítica, dúvida e autorreflexão, a pequena tela seria aquilo que abarcamos com nosso olhar. Supomos assim ser menores do que o cinema, que nos faz maiores, e maiores do que a televisão, que nos faz menores. O poder do  maior é o de nos conter, o do menor é o de nos concentrar”.  (pg 136). Outra observação importante de Márcia: os filósofos que pensaram o surgimento da imagem em movimento não sabiam ainda do que viria, as câmeras individuais e o YouTube, por exemplo, o que concede outras características ao sujeito.