quinta-feira, 19 de abril de 2012

PREFÁCIO DO NOVO LIVRO A SER PUBLICADO EM BREVE

O PROJETO REVISTA MASCULINA

Em janeiro de 2002 escrevi um conto chamado “Revista Masculina”. Nesse texto, bastante longo para um conto, eu quis criar um personagem que trouxesse consigo um perfil ou algumas características do perfil que vinha sendo mostrado em revistas, sites e programas sobre comportamento, que tratavam do homem atual. Não são poucos os artigos, crônicas, reportagens que revelam os desafios, as insuficiências, os deslocamentos e a insegurança do homem do século XXI, seja em relação à nova mulher, seja em relação às novas exigências do mundo em transformação.
Esse era o projeto daquele texto primeiro. Mas, obviamente, para um tema dessa natureza não bastou um conto. Ao longo dos anos foram surgindo muitos textos inspirados na temática: o universo masculino nesse início de século. Até 2006 foram escritos: “Close UP”, “Encanto”, “A Agressão”, “Confronto”, “Laudo de Perícia Sobre o Sr Alceu Ferrero”, “Menta”, “O Ensaio na Casa Vizinha”, “O Baile Debutante”, “Amor Pensado”, “Longe do Teu Coração”, “Quick Motion”, “Beth e Fred”, “A Conexão”, “As Torres”, “Desafetos”, “Filhos de Caim”, “Joana D’Arc”, “Os Negociadores”, “Trilogia dos Enganos”, “Aparição”, “Close Up em Marcela”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina”, “Fraudes e Delitos”, “Futebol”, “O Homem que Quis Ver o Pôr do Sol”, “O Aquário”, “Trilogia dos Cineastas Desamparados”, “Voo Rasante” e “Verônica Boêmia”. Todos permanecem inéditos, com exceção de “Beth e Fred” que foi publicado na antologia “Elo de Palavras” (Scortecci, 2008).
Entre 2007 e 2008 eu tentei organizar esse material. Ao me debruçar sobre ele para um julgamento crítico, deparei-me com alguns textos péssimos, outros razoáveis, alguns bons, muitos inacabados e algumas narrativas longas demais, além da diversidade de construção. Percebi, sobretudo, que o propósito da coletânea inicial estava sendo “invadido” por outros temas. Tratei de fazer divisões e definir o que realmente pertenceria à coletânea, que deveria se chamar “Revista Masculina”. Então, a seleção daquele momento ficou assim: “Close Up”, Close Up em Marcela”, “O Baile Debutante”, “Encanto”, “Futebol”, “Beth e Fred”, “Fraudes e Delitos”, “Aparição”, “O Homem que Quis Ver o Pôr do Sol”, “Longe do Teu Coração”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina” e “Quick Motion”. Uniu-se à seleção, claro, o texto que deu origem ao projeto, “Revista Masculina”. Além desses, também foram incorporados à coletânea o conto “Incidente na Academia de Ginástica”, vindo de outra coletânea inédita, “Um Dossiê Médico”, e também “Dia Útil”, retirado da coletânea inédita homônima.
Ao descartar boa parte da coletânea original, acabei unindo alguns desses textos num novo conjunto. Surgia a coletânea “Filhos de Caim”. O mais interessante, ao fazer esse novo arranjo, foi perceber que a atmosfera dessa nova seleção tinha um gosto de “livro maldito”. Entre os malditos foram selecionados: “A Conexão”, “As Torres”, “Desafetos”, “Filhos de Caim”, “Joana D’Arc”, “Os Negociadores”, “Trilogia dos Enganos”, “Voo Rasante”, “A Agressão”, “Confronto”, “Laudo de Perícia Sobre o Sr Alceu Ferrero”, “Menta”, “O Ensaio na Casa Vizinha” e “Amor Pensado”. Mais tarde foi composto para essa coletânea o conto “Memórias de Uma Infância Oculta”.
Mas voltando à “Revista”, surge agora a vontade de publicar ao menos uma pequena parte daquela seleção de 2008. Fez-se assim mais uma seleção de textos, cujo subtítulo é “O Homem Exposto”. Para este primeiro volume de “Revista Masculina”, algumas narrativas sofreram pequenas alterações. O que se intitulava, originalmente, “Encanto”, foi rebatizado de “O Homem Encantado”. Já “Close Up” e “Close Up em Marcela”, tornaram-se apenas “Close Up”, pois o segundo título era apenas continuação do primeiro. Unem-se a elas: “Beth e Fred”, “Entrevista de Um Ator Pornô para uma Revista Feminina” e “Quick Motion”. De modo geral prefiro não nomear de Contos esta seleção, e sim apenas de Narrativas, visto que os recursos de linguagens usados em alguns textos vão além do tradicional Conto. “Quick Motion”, por exemplo, segue um formato de roteiro de televisão ou cinema, embora também não tenha a intenção de respeitar rigorosamente o padrão de roteiro. “Close Up” segue essa mesma linha; aqui o leitor é conduzido por uma câmera para observar o diálogo do casal Marcelo e Marcela. Em “O Homem Encantado”, o diálogo entre o Diretor e o Ator se faz sem a presença de um narrador. Aliás, o subtítulo “O Homem Exposto” decorre também dessa referência ao homem contemporâneo como objeto de observação de mídias, como a televisão e a revista.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O TITANIC E O IMPERIALISMO

Quando menina, tive em mãos um livro de história que elencava, cronologicamente, os grandes fatos históricos, de maneira resumida, como uma sequência de flasches. Me chamou a atenção ver entre os fatos, normalmente de natureza política e econômica, um acidente marítimo. Dali em diante, tudo que dizia respeito ao naufrágio do Titanic me despertava interesse. Acho que eu esperava encontrar alguma relevância do acidente para a história geral, mais do que um fato importante apenas na história marítima.
Não devemos ignorar a repercussão mundial que o acidente ganhou, graças ao papel da imprensa na época, mas também podemos considerar que o naufrágio aconteceu no auge do chamado Imperialismo, o que nos remete a um momento de intensa animação capitalista. O imperialismo é marcado pelo domínio territorial de algumas nações, fortalecidas pela Revolução Industrial, e que buscavam novas fontes de matéria prima e mercado consumidor. Esse fenômeno, que percorre do final do século XIX a 1914, tem no Reino Unido seu maior exemplo de expansionismo. Seu domínio atinge a Índia, a África do Sul, a China... A Europa toda vive nesse espírito de fortalecimento político, conflitos de classes, competição desenfreada, expansão territorial e cultural, exploração de reservas naturais... O mundo vive as consequências do apogeu do capitalismo clássico (europeu). A Indústria desenvolve tecnologias num ritmo acelerado. A corrida armamentista transformou algumas nações imperialistas em potências bélicas, além de construir alianças entre elas.
É nesse cenário que é construído o transatlântico Titanic, pela White Star Line, do Reino Unido. Não há como não associar a tecnologia e o luxo do navio à prosperidade política e industrial, buscada na época com um empenho nunca visto.
O acidente, portanto, carrega uma marca, um tom, que nos liga àquele espírito de competição e turbulência. A ironia do acontecimento fica por conta dos primeiros registros da causa do naufrágio: um iceberg!... Como pode um mundo que aprendera a dominar a natureza para arrancar-lhe os recursos necessários aos seus projetos, ser surpreendido por essa mesma natureza e sofrer uma das maiores catástrofes até então?
Sem que haja nenhuma relação entre o acidente e a política, apenas dois anos depois do naufrágio do Titanic, a Europa inicia a Primeira Guerra Mundial, que ao longo dos quatro anos de duração mergulha o continente num dos mais trágicos feitos históricos. Como sabemos as nações mais poderosas do período, como o Império Britânico, saíram vencedoras da guerra. Mas a devastação e as crises subsequentes, de toda ordem, fizeram diminuir o ritmo daquela luta de titãs.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Convite da educadora Heloisa Martins Alves

2º Concurso Literário – Prosa e Poesia
Centro Cultural Palace, 04 de abril, quarta-feira, 19:30hs.
Realização: E. E. Otoniel Mota – 105 anos
Centro Cultural Palace – Academia Ribeirãopretana de Letras
AMEC (amigos, moradores e empresários do centro de Ribeirão Preto)
Tema: “O que te traria ao centro de Ribeirão Preto”
Coordenação Musical – Gustavo Molinari
Apresentação – Meire Teixeira

Abertura: Gustavo Molinari e Lívia Andreoni (aluna do 3º ano da E. E. Otoniel Mota)
Piano e violino – “Allegro” de Fiocco

Menção Honrosa prosa – Prof. Cícero Gomes da Silva
Lívia Andreoni – 3ºA – “Centro Cultural”
Menção Honrosa prosa – Mariângela Bistane Villas Boas
Marciele da Silva Maciel – 3ºE – “Vamos clamar a arte”
Menção Honrosa prosa – Maris Ester (Pres. Casa do Poeta e do Escritor de Rib. Preto)
Lucas Buosi – 3ºE – “Quando passado e presente encontraram-se para discutir a possibilidade de um futuro melhor”

Poesia e violino – Lívia e Vítor (alunos do 3º ano do Otoniel Mota) – Pablo Neruda
Canto e piano – Gustavo Molinari e Carol Strakovinch – “O mio babino caro”

Menção Honrosa poesia – Profa. Gertrudes Ferreira (Dirigente Regional de Ensino)
Ana Beatriz Cunha – 3ºF – “Onde me encontrar”
Menção Honrosa poesia – D. Dumara Jacintho
Dryelli Pena César – 3ºA – “É com esse calor pluricultural”
Menção Honrosa poesia – Marcos Ferreira
Júlia Machado Jorge Gomes – 3ºH – “Da minha cadeira eu vejo”

Piano – Rafael Gomes – Lecuona – Gitanerias
Prokofieff – Marcha

3º lugar prosa – Dinah Ataíde (ex-diretora)
Júlia C. L. Canal – 3ºF – “Histórias”
3º lugar poesia – Helena Siqueira (ex-diretora)
Francine Lazari Salomão – 2ºJ – “O centro de Ribeirão é cheio de emoção”
3º lugar poesia – Elisabete de Carvalho Spósito
Ana Clara Lima de Assis – 3ºC – “O que me levaria ao centro de Ribeirão?”

Voz e violão – Vítor Floriano

2º lugar prosa – Cristiane Bezerra
Ana Carolina Betarelo – 3ºE – “Naquela esquina”
2º lugar poesia – Eliane Ratier
Milca S. Galvão – 3ºA – “Centro, esconderijo da cultura”

Canto – dupla Melí e Meliê – professora Rosemary ao piano

1º lugar prosa – Débora Vendramini (Secretária da Educação)
Marina Sanches de Oliveira – 3ºA – “Andando nos paralelepípedos”
1º lugar poesia – Adriana Silva (Secretária da Cultura)
Angélica Myeko Kamada – 3ºA – “O que os olhos não veem o centro faz sentir”

Encerramento: duo piano e acordeon – Gustavo Molinari e Ed Lemos
“Zingaresca” de Pablo de Sarazate

quinta-feira, 29 de março de 2012

UM MUNDO MEFISTOFÉLICO

Assisti à peça “Infausto - no Meio do Redemoinho”. Antecipo que aqui não haverá uma crítica especializada, já que sou apenas espectadora, de passagem. Não sou crítica de teatro. Tampouco faço parte do público fiel de teatro.
Mas acredito conhecer um pouco sobre texto e o que vi no texto teatral de “Infausto”, a princípio, foi o desafio que encarei ao trabalhar com o mesmo tema, no romance: fazer referência a um poderoso mito que nasceu no século XVI. Ou seja, Fausto já nos acompanha desde que decidimos abandonar a fé para seguir pelo caminho da ciência. Isso o torna sempre muito atual. Um mito tão atual já recebeu muitas versões, já foi exposto de mil maneiras. Não dá para assistir mais uma versão sem se deixar levar pela tentação de comparar.
O Fausto do texto de Lucas Arantes começa seu drama dentro de uma granja. Fausto é um acadêmico que teve que deixar a Academia para conviver com galinhas. A fome de conhecimento é substituída pela atividade de engordar galinhas. Nessa frustrante condição, Fausto recebe a visita do Demônio, que demonstra conhecer profundamente o mundo acadêmico... logo, compreende o que Fausto necessita. Para um melhor entendimento entre ambos, segue-se uma refeição, uma ceia, graças ao sacrifício de uma das galinhas, entregue à mesa dos dois.
Entram em cena jovens universitários. É a juventude que Fausto deseja?... É isso que ele quer para ganhar tempo de compreender o que seu cansaço de velho já não permite compreender?... Sim, admite o velho Fausto. Porém, o que temos dessa juventude? Que mente descansada e criativa é essa que Fausto cobiça?
Não... Na visão do Demônio, seu contratante, não há um vigor intelectual nessa juventude do século XXI, não há vigor que seja digno de um Fausto, não neste século, quando a Ciência impera no universo, nas células, nos bits. Não... Contrariando o que foi prometido ao estudioso faustiano do século XVI, essa juventude revela-se desperdiçada e despedaçada em Massa. Os universitários de “Infausto” são os micos de um circo programado, mentes absorvidas pelo modismo, desejo coletivo de pular e macaquear, pulos que fazem barulho...
Mas para ganhar a alma de Fausto, o Demônio pode perfeitamente associar juventude à sede de saber, ao descanso, à disposição para o conhecimento... Contudo, sabemos que ele finge, ele engana. Assim, ele salta da mente científica do velho acadêmico para o corpo e desejo do jovem estudante. Nosso Demônio de Ribeirão Preto prepara seu pacto. Gera um novo Adão. Dá ao acadêmico o corpo de um jovem. Sacrifica esse jovem tal como acontecera à galinha que serviu para a ceia. Nesse corpo jovem, acostumado à macaquice da Massa, já não há espaço para o conhecimento e sim o doce prazer de cair na armadilha do desejo. Eis o plano do Mefisto de “Infausto”: o desejo do corpo assume o lugar da sede do conhecer. Fausto está perdido. Agraciado com o corpo jovem, fisicamente revigorado e intelectualmente passivo, o acadêmico tenta se salvar no amor. E nestes tempos, nada mais aconselhável do que estender a mão ao outro, como terapia, para ambos: quem estende a mão e que a segura. Surge Rosa (irmã gêmea de Margarida, de Goethe). A caridosa Rosa é a salvação de Fausto. Mas ela, tal como Margarida, não fora feita para Fausto porque pertence a Deus. Ainda assim, os dois se enlaçam. Cumpre-se o projeto demoníaco. Rosa é penalizada por amar Fausto.
O novo Adão percebe sua ruína e conhece o arrependimento. Mas se o Adão bíblico é expulso do paraíso por desobediência, o Adão-Fausto se culpa por corromper o paraíso. Não há expulsão, mas ele está condenado a arcar com as consequências da sua escolha.
A atualidade do mito de Fausto se consagra na insuficiência da razão humana diante da realidade marcada, a cada momento, por alguma frustração. Em tempos atuais, essa impotência ocasiona o resgate de sentimentos religiosos, crenças e esperanças em algo além da matéria, além do conhecimento palpável. Será isso que chamamos redenção?... Ou redenção é apenas o nome do disfarce da ilusão? Nada mais trágico... como o diabo gosta!


“Infausto – no meio do redemoinho”.
A estreia aconteceu dia 27 de março, na Praça Carlos Gomes, Ribeirão Preto

Direção: Dino Bernardi; Dramaturgia: Lucas Arantes; Assitência de Direção: Renata Torraca; Direção Musical: Francis Wiermann; Elenco: Fausto Ribeiro, Gabriel Galhardo, Márcio Bá, Monalisa Machado e Poliana Savegnago; Elenco convidado: Fernanda Soto, Matheus Savazzi e Vinícius Andrade; Músicos convidados: Claire Jezequel e Emanuel Dlouhy; Cenografia e Figurino: Dino Bernardi; Iluminação: Érico Daminelli; Preparação de Atores: Gustavo Sol;
“Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural – 2011”.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O CONSTANTE SUSSURRO


Uma voz, um sopro, um incômodo constante. Essa cobrança que nunca se satisfaz; essa voz exigindo sempre mais, mais uma palavra, mais um título, mais um combate, mais um confronto... E a cada finalização a voz murmura que “ainda não é bem isso”.
Escrever é atender a esse eco maldito, insaciável. Atender a essa voz sem dono é conspirar contra os donos das horas. As horas perdidas com tão pouco fazer... são as horas que faltam para compor a forma do sentir, do pensar. É preciso recuperar o tempo e compor, moldar, registrar, organizar em palavras e frases o que a voz sem rosto exige.
Às vezes penso nos meus textos que deveriam ser abandonados sem acabar por serem obscuros mesmo para mim. Mas logo vem à minha frente algo que aponta uma pequena brecha de entendimento ou uma luz que revela, de relance, o que eu estaria perdendo se abandonasse aquele texto. Então volto a me concentrar nele. Dou-lhe mais uma chance de me ensinar o que há dentro de mim, por trás do que crio. Quem é Dani Scarpini? O que você quer de mim? Que maldição é essa? Por que esse jogo? Que você é um jogador eu já sei. O problema é que você mesmo não sabe disso. Cabe a mim lhe mostrar como jogar, com quem jogar...
Dani transporta uma visão política (que eu já nem sei se devo chamar assim: “política”) absolutamente obscura. Ele é capaz de mudar as coisas, conhece seu poder, à sua maneira... Porém, falta-lhe o método. Ou será que seu problema é justamente não querer conhecer o método?... Mas por quê?... Por que renunciar ao poder de mudar as coisas? Será medo? É por medo, Dani Scarpini? Mas como?!, se até o momento, concluída a primeira parte do Romance, Dani conseguiu enfrentar o medo de um desconhecido, e foi além, submetendo-se a outros desconhecidos, a outros desafios... Talvez tudo isso não tenha sido suficiente para ele crescer a ponto de assumir seu poder, o poder que lhe cabe por natureza... já que, aos olhos dos outros, não apresenta nenhum sinal de autoconfiança.
Os caminhos que me levam a Dani Scarpini são diferentes daqueles que me lavaram a Elídio Patrezzi. Ambos se parecem em algumas coisas, mas com Elídio eu sempre tive mais facilidade de lidar porque havia mais clareza no seu propósito. Criei-lhe uma teia de relações que funcionaram harmonicamente para compor sua evolução no enredo. Acho que obtive sucesso na conclusão de “A Performance”. O romance ficou leve, suportável... talvez com excesso de análises por parte de Elídio; mas até isso foi necessário para que ficasse clara a dimensão do seu choque com uma realidade que ele se esforçava para sufocar.
Recentemente nasceu Giogan. Não é o mesmo de “Poênia”, meu primeiro e tolo livro que fala de uma guerra civil fictícia. O Giogan de agora é outro. Como sempre tem algo parecido com os outros personagens meus. O que eles normalmente têm em comum? Um certo desdém com a própria vida, uma apatia crônica. Parece terrível fazê-los viver, caminhar, falar, agir... Mas se eu não cuido dessa gente...

Na foto, escultura de Auguste Rodin

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Escritores pela liberdade
28 de fevereiro de 2012 | 3h 07

JOAQUIM MARIA BOTELHO - O Estado de S.Paulo
Os tempos mudam, mudam as urgências. Qual a bandeira do escritor brasileiro nos tempos atuais, em que os inimigos estão ocultos sob nomenclaturas cheias de vaguidão, como "mercado", "urgências sociais" e outras? Mesmo sem vaca e sem bandeira, ó Neruda, e muitas vezes sem editora, o escritor continua sendo o sustentáculo de qualquer política cultural consistente, em qualquer país. Ele reflete, rememora, inaugura, antecipa, testemunha, sugere, incentiva. E debate. Foi o que fizemos, 600 de nós, durante o Congresso Brasileiro de Escritores de 2011, que foi realizado em Ribeirão Preto.


Debatendo durante quatro dias, nós nos dispusemos a cobrar dos poderes públicos a proteção, a defesa e o apoio à produção literária e a incentivar as famílias a intervirem no processo da formação de leitores. O manifesto que resultou do nosso congresso já foi encaminhado aos ministros Aloizio Mercadante, da Educação, e Ana de Hollanda, da Cultura. E, neste espaço com que o jornal O Estado de S. Paulo nos privilegia, queremos ampliar a divulgação das nossas decisões.

Nós, escritores, protestamos contra modalidades de censura ainda em vigor, como as restrições judiciais que impedem a circulação de biografias e outras pesquisas, a pretexto de defender sucessores ou pesquisados, porque representa evidente cerceamento à liberdade criadora do escritor e também limita o direito dos leitores de conhecerem mais opiniões acerca de determinada figura pública ou de certos acontecimentos.

Restrições dessa natureza resultam em prejuízo para a pluralidade de opiniões e levam à superficialidade do pensamento. Em suma, empobrecem a própria educação. Também por isso, entendemos ser prioridade a defesa intransigente da qualidade da educação no Brasil, esperando do Estado os investimentos necessários à qualificação e ao aprimoramento dos professores e à manutenção de escolas e equipamentos; em especial, que seja resgatado o ensino da literatura nas escolas, com atenção ao conteúdo e ao valor, tanto pedagógico quanto artístico, das obras adotadas para leitura e exame, com ênfase para a produção nacional, com critério, mas sem censura.

Sustentamos, como premissa, que o governo brasileiro implante e defenda política cultural nacional, equilibrada, justa, democrática e aberta, da qual o Estado participe como facilitador, e não como mentor, exigindo a defesa, o incentivo e a proteção de toda criação artística, pautada pelo respeito ao direito autoral, à liberdade de expressão, à busca de ampla divulgação e publicidade, em atendimento aos preceitos do desenvolvimento cultural de um país: educação, cidadania, democracia, igualdade, liberdade, diversidade, direitos humanos e preservação do acervo e do patrimônio cultural, estético, artístico e ecológico do País.

Não se chegará a isso sem a imprescindível ampliação dos programas em curso, especialmente de órgãos do Ministério da Cultura, para estimular a leitura e promover a difusão da literatura brasileira, assim enfrentando o dramático descompasso, em nosso país, de índices de leitura de livros e, correlatamente, do alarmante analfabetismo funcional.

Requeremos, igualmente, por parte dos órgãos públicos, consistência e regularidade nos programas de difusão da literatura brasileira no exterior, apoiando traduções de obras, mostras e apresentações de autores, a exemplo do que é feito, rotineiramente, pelos governos de outros países.

Esperamos esforços equivalentes das administrações estaduais e municipais, para que desenvolvam políticas culturais em consonância com esse esforço; especialmente, ao manterem e equiparem bibliotecas públicas e programas de promoção da literatura e incentivo à leitura, e pela boa divulgação da produção nacional em seus equipamentos culturais e meios de comunicação.

Repudiamos frontalmente programas de difusão de livros e incentivo à leitura, especialmente na área educacional, que exijam a renúncia a direitos autorais e de edição. Declaramos inadmissível qualquer equiparação da tradução literária ou qualquer escrita criativa à prestação de serviços, obliterando ou suprimindo direitos autorais. Exigimos transparência nas prestações de contas a autores por parte de editores e, por isso, propomos, como tópico da lei de direitos autorais ora em exame, a inserção de informe da tiragem pela gráfica nas edições em maior escala; e, naquelas em impressão digital ou nos livros por encomenda, que as editoras numerem cada exemplar. E, ainda, que em livros eletrônicos ou quaisquer edições no meio digital seja garantido ao autor o conhecimento a qualquer tempo da quantidade de exemplares adquiridos por esse meio; e, também, que seja assegurada, nas compras de grandes quantidades de livros por órgãos públicos, a comprovação pelo editor de que o titular de direitos autorais foi informado da compra.

Lutaremos pelo fim dos privilégios no fomento à produção artística; pela reestruturação do Fundo Nacional de Cultura, de modo que este receba recursos originados do Imposto de Renda devido pelas empresas, a serem destinados a projetos aprovados por um conselho de representantes da sociedade civil que analisarão projetos a serem financiados por leis de incentivos, assim retirando das empresas patrocinadoras o poder decisório sobre a destinação final de tais recursos.

Aproveitamos para confessar as nossas próprias faltas e prometer os nossos melhores esforços para que a literatura brasileira cumpra o seu papel social, que é o de registrar nossa identidade, perscrutar nossa alma, brasileira e universal, e dar voz ao sentimento do mundo. E assim contribuir para a História. Talvez não como queremos, mas como podemos.

*PRESIDENTE DA UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES (UBE)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A FORMA INFINITA


na foto, "Estandarte", de Arthur Bispo do Rosário
Imaginemos o olhar da abelha operária e coloquemos nossos olhos nos olhos dela. Essa nova abelha, dotada de visão humana, terá que unir à força do instinto a sede da razão. Com esse acúmulo ela se cansará das milhares de flores e suas cores, cheiros e formas. A busca pelo néctar em certo momento irá se tornar uma tarefa árdua, contaminada por uma angústia que só pode ser humana. Pois aos olhos humanos não bastará identificar a flor; nessa viagem, nesse voo majestoso, o olhar humano exercitará também a contemplação. Assim, na tarefa que garante a preservação da sua espécie, essa abelha – humanizada – terá que fechar os olhos para a estética, para não se esgotar.
Deixemos pois a abelha em paz! Nada de olhos humanos sobre seu objeto-mundo.
Pensemos então em outro tipo de comunhão do homem com a natureza. Uma comunhão que considere apenas a contemplação. Aqui também há alguma razão para o olhar humano recorrer a essas formas e organizações. Natureza e estética são assim cúmplices perfeitas para o nosso deleite. Mas quando uma racionalidade industrial e uma conveniência cotidiana imperam, as formas e organizações são subjugadas e entregues ao desequilíbrio. Nesse caso, não há como não enfrentar o prejuízo para aquele humano que precisa contemplar. Dominar a natureza com o fim único da exploração é desarticular aquela comunhão. Onde só existe exploração desmedida a rosa não consegue encantar, não servirá de nada além do passageiro adorno para uma solenidade.
Nas artes somos convidados a exercitar o olhar para além da conveniência cotidiana. Elas vêm fazer parte da nossa comunhão com a natureza. Elas possuem uma função. Na Arte Contemporânea, onde o rigor da criação ultrapassa os limites da imagem real e natural, o observador-contemplador encontrará uma forma visceral lá onde viu a promessa de refúgio. Na provocação estabelecida por essa forma reside todo o conflito que expressa as possibilidades de um espírito atual. O que é esse espírito? Como o instinto se preserva nele? Já não basta copiar o que os olhos veem. Faz-se necessário então elaborar um acordo com o refúgio, compreender a intenção de verdade e a experiência que se escondem atrás daquela forma. A subjetividade, que determinou todas as opções do artista, vem aos olhos do observador provocar, se instalar como parte de um processo histórico e converter a interpretação em aliança com o artista. Agora é a obra que se assume como possibilidade de voo. Já não há mundo que possa ser negado pelo olho. Se para a abelha só interessa a flor, para o observador de arte haverá o desafio do infinito. E a forma exigirá a transgressão quanto maior for a resistência ao debate sobre o que envolve a criação e sempre que houver o risco de uma indiferença para com a natureza humana.
O estranhamento, que tantas vezes convence o observador a se afastar de uma obra de arte contemporânea, não pode ser banalizado. Esse estranhamento pode ser o reflexo de um estado, seja ele depreciativo, emancipador, estagnado, que ainda não está no todo assimilado. Estranhamos algo sempre que ele implica num confronto inevitável com nosso próprio interior. A Arte Contemporânea, antes de tudo, favorece a memória naquilo em que estimula a “comparação” com outros períodos. É também a convocação do suspense, a interrupção do tempo, a mobilização vaga pelo espaço, o resgate do instinto. A Arte Contemporânea exige que creditemos ao inconsciente a propriedade da memória, exige a abertura para o sentimento mais recôndito e para a magia do sonho. O estranhamento portanto deve ser o primeiro passo, a porta de entrada para o desafio do infinito. Deve reverter a situação de incômodo e resolver o impasse. Ficar imóvel diante de uma obra requer o reconhecimento de uma dignidade que hoje significa, inclusive, furtar-se de um cotidiano que não consegue oferecer mais do que o transitório. Por isso mesmo muitas vezes uma obra se configura no efêmero, de pouca duração e descomprometida com tudo que um dia inspirou o eterno. O registro contudo é necessário para que se preserve a lembrança da obra que um dia existiu. Pois o registro do observador no momento da exposição pode não durar mais do que o tempo de existência da obra. Por outro lado, essa mesma efemeridade pode estimular um registro que reflita sobre as circunstâncias dessa escolha, dessa ação, desse comportamento, enfim. Ver, observar, abrir-se à forma artística passa a ser então um movimento quase de tensão.
Tensão, estranhamento, deleite... A relação com a obra se cumpre finalmente. Formaliza-se enquanto busca, enquanto esperança na sensibilidade e não só no sensorial. Extraímos da forma o néctar, o substancial para seguir pelos dias.