Assisti à peça “Infausto - no Meio do Redemoinho”. Antecipo que aqui não haverá uma crítica especializada, já que sou apenas espectadora, de passagem. Não sou crítica de teatro. Tampouco faço parte do público fiel de teatro.
Mas acredito conhecer um pouco sobre texto e o que vi no texto teatral de “Infausto”, a princípio, foi o desafio que encarei ao trabalhar com o mesmo tema, no romance: fazer referência a um poderoso mito que nasceu no século XVI. Ou seja, Fausto já nos acompanha desde que decidimos abandonar a fé para seguir pelo caminho da ciência. Isso o torna sempre muito atual. Um mito tão atual já recebeu muitas versões, já foi exposto de mil maneiras. Não dá para assistir mais uma versão sem se deixar levar pela tentação de comparar.
O Fausto do texto de Lucas Arantes começa seu drama dentro de uma granja. Fausto é um acadêmico que teve que deixar a Academia para conviver com galinhas. A fome de conhecimento é substituída pela atividade de engordar galinhas. Nessa frustrante condição, Fausto recebe a visita do Demônio, que demonstra conhecer profundamente o mundo acadêmico... logo, compreende o que Fausto necessita. Para um melhor entendimento entre ambos, segue-se uma refeição, uma ceia, graças ao sacrifício de uma das galinhas, entregue à mesa dos dois.
Entram em cena jovens universitários. É a juventude que Fausto deseja?... É isso que ele quer para ganhar tempo de compreender o que seu cansaço de velho já não permite compreender?... Sim, admite o velho Fausto. Porém, o que temos dessa juventude? Que mente descansada e criativa é essa que Fausto cobiça?
Não... Na visão do Demônio, seu contratante, não há um vigor intelectual nessa juventude do século XXI, não há vigor que seja digno de um Fausto, não neste século, quando a Ciência impera no universo, nas células, nos bits. Não... Contrariando o que foi prometido ao estudioso faustiano do século XVI, essa juventude revela-se desperdiçada e despedaçada em Massa. Os universitários de “Infausto” são os micos de um circo programado, mentes absorvidas pelo modismo, desejo coletivo de pular e macaquear, pulos que fazem barulho...
Mas para ganhar a alma de Fausto, o Demônio pode perfeitamente associar juventude à sede de saber, ao descanso, à disposição para o conhecimento... Contudo, sabemos que ele finge, ele engana. Assim, ele salta da mente científica do velho acadêmico para o corpo e desejo do jovem estudante. Nosso Demônio de Ribeirão Preto prepara seu pacto. Gera um novo Adão. Dá ao acadêmico o corpo de um jovem. Sacrifica esse jovem tal como acontecera à galinha que serviu para a ceia. Nesse corpo jovem, acostumado à macaquice da Massa, já não há espaço para o conhecimento e sim o doce prazer de cair na armadilha do desejo. Eis o plano do Mefisto de “Infausto”: o desejo do corpo assume o lugar da sede do conhecer. Fausto está perdido. Agraciado com o corpo jovem, fisicamente revigorado e intelectualmente passivo, o acadêmico tenta se salvar no amor. E nestes tempos, nada mais aconselhável do que estender a mão ao outro, como terapia, para ambos: quem estende a mão e que a segura. Surge Rosa (irmã gêmea de Margarida, de Goethe). A caridosa Rosa é a salvação de Fausto. Mas ela, tal como Margarida, não fora feita para Fausto porque pertence a Deus. Ainda assim, os dois se enlaçam. Cumpre-se o projeto demoníaco. Rosa é penalizada por amar Fausto.
O novo Adão percebe sua ruína e conhece o arrependimento. Mas se o Adão bíblico é expulso do paraíso por desobediência, o Adão-Fausto se culpa por corromper o paraíso. Não há expulsão, mas ele está condenado a arcar com as consequências da sua escolha.
A atualidade do mito de Fausto se consagra na insuficiência da razão humana diante da realidade marcada, a cada momento, por alguma frustração. Em tempos atuais, essa impotência ocasiona o resgate de sentimentos religiosos, crenças e esperanças em algo além da matéria, além do conhecimento palpável. Será isso que chamamos redenção?... Ou redenção é apenas o nome do disfarce da ilusão? Nada mais trágico... como o diabo gosta!
“Infausto – no meio do redemoinho”.
A estreia aconteceu dia 27 de março, na Praça Carlos Gomes, Ribeirão Preto
Direção: Dino Bernardi; Dramaturgia: Lucas Arantes; Assitência de Direção: Renata Torraca; Direção Musical: Francis Wiermann; Elenco: Fausto Ribeiro, Gabriel Galhardo, Márcio Bá, Monalisa Machado e Poliana Savegnago; Elenco convidado: Fernanda Soto, Matheus Savazzi e Vinícius Andrade; Músicos convidados: Claire Jezequel e Emanuel Dlouhy; Cenografia e Figurino: Dino Bernardi; Iluminação: Érico Daminelli; Preparação de Atores: Gustavo Sol;
“Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural – 2011”.
quinta-feira, 29 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
O CONSTANTE SUSSURRO

Uma voz, um sopro, um incômodo constante. Essa cobrança que nunca se satisfaz; essa voz exigindo sempre mais, mais uma palavra, mais um título, mais um combate, mais um confronto... E a cada finalização a voz murmura que “ainda não é bem isso”.
Escrever é atender a esse eco maldito, insaciável. Atender a essa voz sem dono é conspirar contra os donos das horas. As horas perdidas com tão pouco fazer... são as horas que faltam para compor a forma do sentir, do pensar. É preciso recuperar o tempo e compor, moldar, registrar, organizar em palavras e frases o que a voz sem rosto exige.
Às vezes penso nos meus textos que deveriam ser abandonados sem acabar por serem obscuros mesmo para mim. Mas logo vem à minha frente algo que aponta uma pequena brecha de entendimento ou uma luz que revela, de relance, o que eu estaria perdendo se abandonasse aquele texto. Então volto a me concentrar nele. Dou-lhe mais uma chance de me ensinar o que há dentro de mim, por trás do que crio. Quem é Dani Scarpini? O que você quer de mim? Que maldição é essa? Por que esse jogo? Que você é um jogador eu já sei. O problema é que você mesmo não sabe disso. Cabe a mim lhe mostrar como jogar, com quem jogar...
Dani transporta uma visão política (que eu já nem sei se devo chamar assim: “política”) absolutamente obscura. Ele é capaz de mudar as coisas, conhece seu poder, à sua maneira... Porém, falta-lhe o método. Ou será que seu problema é justamente não querer conhecer o método?... Mas por quê?... Por que renunciar ao poder de mudar as coisas? Será medo? É por medo, Dani Scarpini? Mas como?!, se até o momento, concluída a primeira parte do Romance, Dani conseguiu enfrentar o medo de um desconhecido, e foi além, submetendo-se a outros desconhecidos, a outros desafios... Talvez tudo isso não tenha sido suficiente para ele crescer a ponto de assumir seu poder, o poder que lhe cabe por natureza... já que, aos olhos dos outros, não apresenta nenhum sinal de autoconfiança.
Os caminhos que me levam a Dani Scarpini são diferentes daqueles que me lavaram a Elídio Patrezzi. Ambos se parecem em algumas coisas, mas com Elídio eu sempre tive mais facilidade de lidar porque havia mais clareza no seu propósito. Criei-lhe uma teia de relações que funcionaram harmonicamente para compor sua evolução no enredo. Acho que obtive sucesso na conclusão de “A Performance”. O romance ficou leve, suportável... talvez com excesso de análises por parte de Elídio; mas até isso foi necessário para que ficasse clara a dimensão do seu choque com uma realidade que ele se esforçava para sufocar.
Recentemente nasceu Giogan. Não é o mesmo de “Poênia”, meu primeiro e tolo livro que fala de uma guerra civil fictícia. O Giogan de agora é outro. Como sempre tem algo parecido com os outros personagens meus. O que eles normalmente têm em comum? Um certo desdém com a própria vida, uma apatia crônica. Parece terrível fazê-los viver, caminhar, falar, agir... Mas se eu não cuido dessa gente...
Na foto, escultura de Auguste Rodin
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Escritores pela liberdade
28 de fevereiro de 2012 | 3h 07
JOAQUIM MARIA BOTELHO - O Estado de S.Paulo
Os tempos mudam, mudam as urgências. Qual a bandeira do escritor brasileiro nos tempos atuais, em que os inimigos estão ocultos sob nomenclaturas cheias de vaguidão, como "mercado", "urgências sociais" e outras? Mesmo sem vaca e sem bandeira, ó Neruda, e muitas vezes sem editora, o escritor continua sendo o sustentáculo de qualquer política cultural consistente, em qualquer país. Ele reflete, rememora, inaugura, antecipa, testemunha, sugere, incentiva. E debate. Foi o que fizemos, 600 de nós, durante o Congresso Brasileiro de Escritores de 2011, que foi realizado em Ribeirão Preto.
Debatendo durante quatro dias, nós nos dispusemos a cobrar dos poderes públicos a proteção, a defesa e o apoio à produção literária e a incentivar as famílias a intervirem no processo da formação de leitores. O manifesto que resultou do nosso congresso já foi encaminhado aos ministros Aloizio Mercadante, da Educação, e Ana de Hollanda, da Cultura. E, neste espaço com que o jornal O Estado de S. Paulo nos privilegia, queremos ampliar a divulgação das nossas decisões.
Nós, escritores, protestamos contra modalidades de censura ainda em vigor, como as restrições judiciais que impedem a circulação de biografias e outras pesquisas, a pretexto de defender sucessores ou pesquisados, porque representa evidente cerceamento à liberdade criadora do escritor e também limita o direito dos leitores de conhecerem mais opiniões acerca de determinada figura pública ou de certos acontecimentos.
Restrições dessa natureza resultam em prejuízo para a pluralidade de opiniões e levam à superficialidade do pensamento. Em suma, empobrecem a própria educação. Também por isso, entendemos ser prioridade a defesa intransigente da qualidade da educação no Brasil, esperando do Estado os investimentos necessários à qualificação e ao aprimoramento dos professores e à manutenção de escolas e equipamentos; em especial, que seja resgatado o ensino da literatura nas escolas, com atenção ao conteúdo e ao valor, tanto pedagógico quanto artístico, das obras adotadas para leitura e exame, com ênfase para a produção nacional, com critério, mas sem censura.
Sustentamos, como premissa, que o governo brasileiro implante e defenda política cultural nacional, equilibrada, justa, democrática e aberta, da qual o Estado participe como facilitador, e não como mentor, exigindo a defesa, o incentivo e a proteção de toda criação artística, pautada pelo respeito ao direito autoral, à liberdade de expressão, à busca de ampla divulgação e publicidade, em atendimento aos preceitos do desenvolvimento cultural de um país: educação, cidadania, democracia, igualdade, liberdade, diversidade, direitos humanos e preservação do acervo e do patrimônio cultural, estético, artístico e ecológico do País.
Não se chegará a isso sem a imprescindível ampliação dos programas em curso, especialmente de órgãos do Ministério da Cultura, para estimular a leitura e promover a difusão da literatura brasileira, assim enfrentando o dramático descompasso, em nosso país, de índices de leitura de livros e, correlatamente, do alarmante analfabetismo funcional.
Requeremos, igualmente, por parte dos órgãos públicos, consistência e regularidade nos programas de difusão da literatura brasileira no exterior, apoiando traduções de obras, mostras e apresentações de autores, a exemplo do que é feito, rotineiramente, pelos governos de outros países.
Esperamos esforços equivalentes das administrações estaduais e municipais, para que desenvolvam políticas culturais em consonância com esse esforço; especialmente, ao manterem e equiparem bibliotecas públicas e programas de promoção da literatura e incentivo à leitura, e pela boa divulgação da produção nacional em seus equipamentos culturais e meios de comunicação.
Repudiamos frontalmente programas de difusão de livros e incentivo à leitura, especialmente na área educacional, que exijam a renúncia a direitos autorais e de edição. Declaramos inadmissível qualquer equiparação da tradução literária ou qualquer escrita criativa à prestação de serviços, obliterando ou suprimindo direitos autorais. Exigimos transparência nas prestações de contas a autores por parte de editores e, por isso, propomos, como tópico da lei de direitos autorais ora em exame, a inserção de informe da tiragem pela gráfica nas edições em maior escala; e, naquelas em impressão digital ou nos livros por encomenda, que as editoras numerem cada exemplar. E, ainda, que em livros eletrônicos ou quaisquer edições no meio digital seja garantido ao autor o conhecimento a qualquer tempo da quantidade de exemplares adquiridos por esse meio; e, também, que seja assegurada, nas compras de grandes quantidades de livros por órgãos públicos, a comprovação pelo editor de que o titular de direitos autorais foi informado da compra.
Lutaremos pelo fim dos privilégios no fomento à produção artística; pela reestruturação do Fundo Nacional de Cultura, de modo que este receba recursos originados do Imposto de Renda devido pelas empresas, a serem destinados a projetos aprovados por um conselho de representantes da sociedade civil que analisarão projetos a serem financiados por leis de incentivos, assim retirando das empresas patrocinadoras o poder decisório sobre a destinação final de tais recursos.
Aproveitamos para confessar as nossas próprias faltas e prometer os nossos melhores esforços para que a literatura brasileira cumpra o seu papel social, que é o de registrar nossa identidade, perscrutar nossa alma, brasileira e universal, e dar voz ao sentimento do mundo. E assim contribuir para a História. Talvez não como queremos, mas como podemos.
*PRESIDENTE DA UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES (UBE)
28 de fevereiro de 2012 | 3h 07
JOAQUIM MARIA BOTELHO - O Estado de S.Paulo
Os tempos mudam, mudam as urgências. Qual a bandeira do escritor brasileiro nos tempos atuais, em que os inimigos estão ocultos sob nomenclaturas cheias de vaguidão, como "mercado", "urgências sociais" e outras? Mesmo sem vaca e sem bandeira, ó Neruda, e muitas vezes sem editora, o escritor continua sendo o sustentáculo de qualquer política cultural consistente, em qualquer país. Ele reflete, rememora, inaugura, antecipa, testemunha, sugere, incentiva. E debate. Foi o que fizemos, 600 de nós, durante o Congresso Brasileiro de Escritores de 2011, que foi realizado em Ribeirão Preto.
Debatendo durante quatro dias, nós nos dispusemos a cobrar dos poderes públicos a proteção, a defesa e o apoio à produção literária e a incentivar as famílias a intervirem no processo da formação de leitores. O manifesto que resultou do nosso congresso já foi encaminhado aos ministros Aloizio Mercadante, da Educação, e Ana de Hollanda, da Cultura. E, neste espaço com que o jornal O Estado de S. Paulo nos privilegia, queremos ampliar a divulgação das nossas decisões.
Nós, escritores, protestamos contra modalidades de censura ainda em vigor, como as restrições judiciais que impedem a circulação de biografias e outras pesquisas, a pretexto de defender sucessores ou pesquisados, porque representa evidente cerceamento à liberdade criadora do escritor e também limita o direito dos leitores de conhecerem mais opiniões acerca de determinada figura pública ou de certos acontecimentos.
Restrições dessa natureza resultam em prejuízo para a pluralidade de opiniões e levam à superficialidade do pensamento. Em suma, empobrecem a própria educação. Também por isso, entendemos ser prioridade a defesa intransigente da qualidade da educação no Brasil, esperando do Estado os investimentos necessários à qualificação e ao aprimoramento dos professores e à manutenção de escolas e equipamentos; em especial, que seja resgatado o ensino da literatura nas escolas, com atenção ao conteúdo e ao valor, tanto pedagógico quanto artístico, das obras adotadas para leitura e exame, com ênfase para a produção nacional, com critério, mas sem censura.
Sustentamos, como premissa, que o governo brasileiro implante e defenda política cultural nacional, equilibrada, justa, democrática e aberta, da qual o Estado participe como facilitador, e não como mentor, exigindo a defesa, o incentivo e a proteção de toda criação artística, pautada pelo respeito ao direito autoral, à liberdade de expressão, à busca de ampla divulgação e publicidade, em atendimento aos preceitos do desenvolvimento cultural de um país: educação, cidadania, democracia, igualdade, liberdade, diversidade, direitos humanos e preservação do acervo e do patrimônio cultural, estético, artístico e ecológico do País.
Não se chegará a isso sem a imprescindível ampliação dos programas em curso, especialmente de órgãos do Ministério da Cultura, para estimular a leitura e promover a difusão da literatura brasileira, assim enfrentando o dramático descompasso, em nosso país, de índices de leitura de livros e, correlatamente, do alarmante analfabetismo funcional.
Requeremos, igualmente, por parte dos órgãos públicos, consistência e regularidade nos programas de difusão da literatura brasileira no exterior, apoiando traduções de obras, mostras e apresentações de autores, a exemplo do que é feito, rotineiramente, pelos governos de outros países.
Esperamos esforços equivalentes das administrações estaduais e municipais, para que desenvolvam políticas culturais em consonância com esse esforço; especialmente, ao manterem e equiparem bibliotecas públicas e programas de promoção da literatura e incentivo à leitura, e pela boa divulgação da produção nacional em seus equipamentos culturais e meios de comunicação.
Repudiamos frontalmente programas de difusão de livros e incentivo à leitura, especialmente na área educacional, que exijam a renúncia a direitos autorais e de edição. Declaramos inadmissível qualquer equiparação da tradução literária ou qualquer escrita criativa à prestação de serviços, obliterando ou suprimindo direitos autorais. Exigimos transparência nas prestações de contas a autores por parte de editores e, por isso, propomos, como tópico da lei de direitos autorais ora em exame, a inserção de informe da tiragem pela gráfica nas edições em maior escala; e, naquelas em impressão digital ou nos livros por encomenda, que as editoras numerem cada exemplar. E, ainda, que em livros eletrônicos ou quaisquer edições no meio digital seja garantido ao autor o conhecimento a qualquer tempo da quantidade de exemplares adquiridos por esse meio; e, também, que seja assegurada, nas compras de grandes quantidades de livros por órgãos públicos, a comprovação pelo editor de que o titular de direitos autorais foi informado da compra.
Lutaremos pelo fim dos privilégios no fomento à produção artística; pela reestruturação do Fundo Nacional de Cultura, de modo que este receba recursos originados do Imposto de Renda devido pelas empresas, a serem destinados a projetos aprovados por um conselho de representantes da sociedade civil que analisarão projetos a serem financiados por leis de incentivos, assim retirando das empresas patrocinadoras o poder decisório sobre a destinação final de tais recursos.
Aproveitamos para confessar as nossas próprias faltas e prometer os nossos melhores esforços para que a literatura brasileira cumpra o seu papel social, que é o de registrar nossa identidade, perscrutar nossa alma, brasileira e universal, e dar voz ao sentimento do mundo. E assim contribuir para a História. Talvez não como queremos, mas como podemos.
*PRESIDENTE DA UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES (UBE)
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A FORMA INFINITA

na foto, "Estandarte", de Arthur Bispo do Rosário
Imaginemos o olhar da abelha operária e coloquemos nossos olhos nos olhos dela. Essa nova abelha, dotada de visão humana, terá que unir à força do instinto a sede da razão. Com esse acúmulo ela se cansará das milhares de flores e suas cores, cheiros e formas. A busca pelo néctar em certo momento irá se tornar uma tarefa árdua, contaminada por uma angústia que só pode ser humana. Pois aos olhos humanos não bastará identificar a flor; nessa viagem, nesse voo majestoso, o olhar humano exercitará também a contemplação. Assim, na tarefa que garante a preservação da sua espécie, essa abelha – humanizada – terá que fechar os olhos para a estética, para não se esgotar.
Deixemos pois a abelha em paz! Nada de olhos humanos sobre seu objeto-mundo.
Pensemos então em outro tipo de comunhão do homem com a natureza. Uma comunhão que considere apenas a contemplação. Aqui também há alguma razão para o olhar humano recorrer a essas formas e organizações. Natureza e estética são assim cúmplices perfeitas para o nosso deleite. Mas quando uma racionalidade industrial e uma conveniência cotidiana imperam, as formas e organizações são subjugadas e entregues ao desequilíbrio. Nesse caso, não há como não enfrentar o prejuízo para aquele humano que precisa contemplar. Dominar a natureza com o fim único da exploração é desarticular aquela comunhão. Onde só existe exploração desmedida a rosa não consegue encantar, não servirá de nada além do passageiro adorno para uma solenidade.
Nas artes somos convidados a exercitar o olhar para além da conveniência cotidiana. Elas vêm fazer parte da nossa comunhão com a natureza. Elas possuem uma função. Na Arte Contemporânea, onde o rigor da criação ultrapassa os limites da imagem real e natural, o observador-contemplador encontrará uma forma visceral lá onde viu a promessa de refúgio. Na provocação estabelecida por essa forma reside todo o conflito que expressa as possibilidades de um espírito atual. O que é esse espírito? Como o instinto se preserva nele? Já não basta copiar o que os olhos veem. Faz-se necessário então elaborar um acordo com o refúgio, compreender a intenção de verdade e a experiência que se escondem atrás daquela forma. A subjetividade, que determinou todas as opções do artista, vem aos olhos do observador provocar, se instalar como parte de um processo histórico e converter a interpretação em aliança com o artista. Agora é a obra que se assume como possibilidade de voo. Já não há mundo que possa ser negado pelo olho. Se para a abelha só interessa a flor, para o observador de arte haverá o desafio do infinito. E a forma exigirá a transgressão quanto maior for a resistência ao debate sobre o que envolve a criação e sempre que houver o risco de uma indiferença para com a natureza humana.
O estranhamento, que tantas vezes convence o observador a se afastar de uma obra de arte contemporânea, não pode ser banalizado. Esse estranhamento pode ser o reflexo de um estado, seja ele depreciativo, emancipador, estagnado, que ainda não está no todo assimilado. Estranhamos algo sempre que ele implica num confronto inevitável com nosso próprio interior. A Arte Contemporânea, antes de tudo, favorece a memória naquilo em que estimula a “comparação” com outros períodos. É também a convocação do suspense, a interrupção do tempo, a mobilização vaga pelo espaço, o resgate do instinto. A Arte Contemporânea exige que creditemos ao inconsciente a propriedade da memória, exige a abertura para o sentimento mais recôndito e para a magia do sonho. O estranhamento portanto deve ser o primeiro passo, a porta de entrada para o desafio do infinito. Deve reverter a situação de incômodo e resolver o impasse. Ficar imóvel diante de uma obra requer o reconhecimento de uma dignidade que hoje significa, inclusive, furtar-se de um cotidiano que não consegue oferecer mais do que o transitório. Por isso mesmo muitas vezes uma obra se configura no efêmero, de pouca duração e descomprometida com tudo que um dia inspirou o eterno. O registro contudo é necessário para que se preserve a lembrança da obra que um dia existiu. Pois o registro do observador no momento da exposição pode não durar mais do que o tempo de existência da obra. Por outro lado, essa mesma efemeridade pode estimular um registro que reflita sobre as circunstâncias dessa escolha, dessa ação, desse comportamento, enfim. Ver, observar, abrir-se à forma artística passa a ser então um movimento quase de tensão.
Tensão, estranhamento, deleite... A relação com a obra se cumpre finalmente. Formaliza-se enquanto busca, enquanto esperança na sensibilidade e não só no sensorial. Extraímos da forma o néctar, o substancial para seguir pelos dias.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
educadores - parte VII - MENALTON BRAFF
Professor Menalton Braff... educando para o hábito da leitura, seja em sala de aula, seja na TV, num bate papo ou em periódicos... de todas as maneiras...
domingo, 15 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
educadores - parte V - A TELEVISÃO (LOST)

É tempo de férias. Não quero incomodar os professores com pedidos de material para meu blog. Prefiro usar esse período para mostrar que mesmo nas férias as crianças e os jovens podem aprender a gostar de ler e de escrever. Pois se trata de um tempo em que grande parte dos alunos acabam ficando em casa... e passam boa parte do dia diante da televisão.
Eu sei que os críticos já estão armados até os dentes contra qualquer defesa desta que é a mais odiosa e maldita instituição cultural do ocidente... este aparelho manipulador dos sentidos... ela... a tirânica Televisão.
Mas como eu mesma sou sua vítima (pois dediquei-lhe boa parte da minha infância e boas noites da minha adolescência), acredito que tenho o direito de julgá-la e até colaborar na sua estratégica manipulação cerebral, com frieza de neurocirurgiã.
Começo explicando que homenageio a Televisão porque foi ela que me iniciou na Literatura. Não, não houve nenhum programa educacional que me influenciasse nesse sentido, intencionalmente. Não... Na verdade a TV me direcionou à escrita, sem que houvesse qualquer plano ou estratégia para isso; foi quase acidentalmente. (ninguém é perfeito).
Ocorreu que eu, desde a infância até o fim da adolescência, gostava de assistir aos filmes de quinta categoria que a televisão apresentava. E de tanto assistir, descobri que gostaria de criar aqueles filmes. Foi assim que comecei a escrever: criando "roteiros" para meus filmes imaginários.
Meus primeiros textos eram portanto de natureza televisiva. Por isso guardo essa dívida com a endemoninhada!
Mas vamos ao objeto desse propósito: refleti sobre o que há de atual, na Televisão, que possa servir de exemplo para o estímulo à leitura. Bom, a primeira lembrança que me veio não é tão atual. O seriado americano, mundialmente famoso, LOST, já se encerrou (diga-se de passagem, com muita decepção para sua multidão de fãs). Mas talvez este seja um dos poucos momentos televisivos em que os fãs tiveram contato com uma bibliografia que tem na sua lista até Dostoiévski.
É engraçado que quando assisti LOST, desde a primeira temporada até o fim, enquanto via as muitas referências literárias, imaginava que elas pudessem ter algo a ver com o clima de mistério que cobria toda a história... a história dos sobreviventes de um acidente aéreo caídos numa ilha pra lá de esquisita.
Por fim cheguei à conclusão que as obras citadas não ofereciam nada (talvez) que pudesse servir de pista para desvendar os mistérios da história. Porém, foi muito legal ver toda aquela vitrine de livros e autores perambulando num espaço televisivo dedicado à massa. E é importante lembrar que LOST foi um fenômeno de sucesso nos países em que foi exibido.
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