domingo, 13 de fevereiro de 2011

mais ditaduras

Li hoje num jornal uma matéria especial sobre uma pesquisa da Apeoesp (Sindicato dos professores do ensino oficial do estado de São Paulo) que foca o professor da rede pública como vítima de estresse. Enquanto expõe os resultados da pesquisa e discute a condição de trabalho dos professores, a matéria mostra um depoimento preocupante: uma professora, que segundo o jornal, não quer se identificar por medo de represálias, diz a seguinte frase: "Somos cobrados de tudo na escola. Se damos declaração somos questionados, enfim não temos liberdade para nada".

sábado, 5 de fevereiro de 2011

tantas ditaduras!

É 2011.

Em 1984, no Brasil, o clima era de esperança na redemocratização das instituições.

Lembro-me de 1984 como se fosse hoje...

Naquele tempo os adultos pensantes festejavam a falência do regime militar, instalado a partir de 1964. O aniversário de 20 anos do regime tinha na verdade um tom fúnebre... para os militares. Ninguém mais se iludia com o que havia. O regime agonizava e dava seu adeus. O povo - na voz dos intelectuais, jornalistas, artistas, ativistas e todo tipo de gente politizada que tinha se sacrificado contra os abusos do regime - proclamava que a democracia estava de volta. Ela voltou, cheia de planos, com mil desafios pela frente, com muita coisa para colocar em ordem. Mas foi se arranjando e oxigenando as instituições.
Contudo, 25 anos depois daquela eufórica vitória, ainda é possivel assistir a absurdos do tipo: dois locutores de rádio conversam no ar durante um programa; eles falam de antigos sucessos e relembram alguns fatos que foram notícia no passado, à época das canções que estão comentando. De repente um deles se lembra de um filme e de um nome de uma figura pública, que ainda atualmente está presente na mídia. Como se tivesse um censor ao seu lado, o locutor, em tom descontraído mas com certa ironia, oculta os nomes tanto do filme - que na época gerou polêmica - quanto da atriz, a figura que ainda é vista pelo público, só que sob outra imagem, quase contrária àquela que lhe valeu no passado o ingresso para o sucesso.
Ditaduras ainda existem. Locutores, jornalistas, artistas, que deveriam se sentir livres, ainda renunciam a algumas palavras, como se fossem censuradas.
Em nome de quê?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

as cartas manuscritas de Iraci

Apesar da era da comunicação fácil, via e-mail, celular e tudo mais, as cartas de papel ainda resistem.
Tenho uma prima, Iraci, que mora em São Joaquim da Barra-SP, e que adora se comunicar por cartas. As dela são sempre manuscritas. Mas independente da maneira da correspondência, o que nos cativa nas cartas de Iraci é a sua linguagem singular e sua expressão que mistura objetividade e poesia... bem isso nas cartas "sérias". Nas cartas "não-sérias", minha prima faz uso de um humor tão original que a gente não consegue associá-la a nenhum estilo a não ser ao dela própria. Enquanto a lemos, rimos porque assim acontece, porque a imagem que ela pinta simplesmente nos faz rir. Não é preciso uma conclusão irônica, nada disso; basta se deixar levar pelo humor que é um misto de inocência infantil com fábula ou imaginação fantástica.
Mas a última carta que recebi de Iraci não tinha essas brincadeiras que nos divertem e nos fazem rir; era a carta que traz aquele tom poético de que falei no começo. Ela me escreveu para agradecer um livro que eu lhe enviei; o livro que lancei em 2009: "Mundo Suspenso". Para expressar sua gratidão e as impressões que teve depois de ler o livro, Iraci me conduziu por um caminho de serena contemplação do ato de escrever. Pelas frases dela, revivi muitas ideias que já me acompanham há muitos anos, mas de uma forma diferente, mais forte, pois vinham de uma pessoa que tem por hábito colocar também nas palavras escritas um sentimento que dificilmente a gente consegue expressar pela fala.
Iraci mostrou-me sua visão do ato de escrever enquanto ela própria cumpria esse ato com elegância, simplicidade e sabedoria. Ela, minha leitora, transformava a mim em sua leitora também. Fiquei ali, encantada por frases de efeito muito positivo mas também muito espontâneo, profundo e singelo, poético e direto.
Iraci, que é alguns anos mais velha que eu e que teve que parar de estudar muito cedo por causa do trabalho, talvez nem perceba, mas enquanto me parabeniza pelos meus escritos, é ela quem presta homenagem à literatura, com seu estilo, seu encantamento pela vida, seu conhecimento de quem faz do mundo a sua verdadeira escola.

domingo, 12 de dezembro de 2010

um pouco de arte contemporânea

há poucos dias descobri um trabalho chamado "the killing machine", da artista Janet Cardiff
trata-se de uma impressionante instalação inspirada no conto "Na Colônia Penal", de Franz Kafka

eis o trabalho em vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=5htpyrUzZUs

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Manifesto sobre princípios básicos para o escritor

1 - O escritor deve preservar a vida
  • sempre que houver oportunidade, zelará pelas condições naturais de preservação da vida
  • evitará a destruição e a autodestruição

2 - O escritor defenderá a criação acima de qualquer coisa

  • a criação da natureza será sempre bem acolhida
  • a criação artística, própria e de outros artistas, será acolhida, refletida e criticada
  • as criaturas em geral serão sempre acolhidas e contempladas

3 - O escritor defenderá obras mesmo que a seu critério tiverem apelos comerciais

  • isso não significa que essa defesa seja um ato de legitimação
  • obras com apelos meramente comerciais não devem ser legitimadas pelo escritor, apenas vislumbradas com silêncio e atenção

4 - O escritor defenderá a liberdade de expressão

  • defender a liberdade de expressão significa estar sempre disponível à discussão sobre ideias expressas

5 - O escritor deve evitar criar obras com propósitos meramente lucrativos

6 - O escritor que não conseguir sobreviver materialmente das letras, trabalhará em qualquer ofício, desde que este lhe reserve um tempo diário para a criação

7 - É fundamental para o escritor ter tempo para escrever e para viver a preguiça e o ócio

  • a preguiça e o ócio não devem ser vistos como vergonha pelo escritor
  • a preguiça e o ócio são amigos dos escritor
  • a preguiça e o ócio providenciam ideias lúcidas e claras
  • a preguiça e o ócio permitem à mente vagar sem esforço pelo pensamento e pelo sentimento

8 - É fundamental para o escritor ter tempo para cochilar, dormir, sonhar e ter pesadelos

  • o cochilo, o sono, os sonhos e os pesadelos são amigos do escritor
  • o cochilo, o sono, os sonhos e os pesadelos favorecem a mente, o espírito, o corpo e a visão do escritor sobre a vida e sobre o mundo
  • um escritor jamais acorda outro escritor, a não ser quando o que está dormindo estiver sob algum perigo sem saber
  • os sonhos e os pesadelos devem ser recebidos como bens pelo escritor, mesmo quando, durante o sonho, houver sofrimento

9 - O escritor sempre evitará remédios para mudar seu humor

  • a química de remédios na manutenção dos sentimentos (depressão, ansiedade, insônia e afins) será sempre vista com suspeita e desconfiança pelo escritor
  • durante o sofrimento o escritor evitará a criação, dedicar-se-á apenas às fontes do seu sofrer, para só mais tarde usar sua reflexão na construção de uma obra

10 - Os bloqueios criativos temporários devem ser tratados com serenidade e sem desespero

  • bloqueios temporários podem ser úteis para a reavaliação da obra e da vida do escritor
  • as causas do bloqueio devem ser examinadas pelo escritor, sozinho; mas se o tempo de bloqueio se prolongar e o escritor sentir que não haverá volta à criação, então partilhará seu drama com alguém que o compreenda

11 - A mente humana e seus mistérios devem estar sempre na pauta do conhecimento a ser adquirido pelo escritor

  • independentemente da sua formação acadêmica, o escritor sempre procurará aprender sobre a mente humana
  • o escritor estará aberto e atento ao contato com mentes especiais, jamais evitará conversa com os chamados deficientes mentais, ao contrário, tentará se corresponder com a comunicação deles
  • o escritor será solícito e paciente com as falas e comportamentos de deficientes mentais, crianças pequenas e todos os casos em que há prejuízo na consciência

12 - O escritor buscará conhecimento continuamente

  • independentemente da sua formação acadêmica, o escritor buscará conhecer a história, a sociedade, a economia, a política, a lei, a cultura e os costumes dos povos

13 - É importante para o escritor conhecer ao menos uma língua estrangeira

14 - É importante para o escritor ler ao menos alguns clássicos da literatura universal

15 - É importante para o escritor pesquisar a teoria, a crítica, a estética literária

16 - É importante para o escritor participar com frequência de eventos culturais sobre literatura e sobre as demais artes

17 - O escritor zelará pela sua biblioteca pessoal como se zelasse por um jardim (mas sem jogar água)

18 - O escritor conversará com outro escritor sobre literatura, família, trabalho, namoro, futebol, política, mercado, doenças, clima, animais e notícias de jornal

19 - O escritor conversará com não-escritores sobre família, trabalho, namoro, futebol, política, mercado, doenças, clima, animais e notícias de jornal

  • na primeira oportunidade, o escritor falará com o não-escritor sobre literatura

20 - O escritor cuidará da sua integridade física para que os males do corpo não interfiram na criação

  • para o escritor os olhos são prioridade absoluta

21 - O melhor exercício físico para o escritor é a caminhada

  • enquanto caminha, o escritor pode deixar a mente respirar à vontade
  • o escritor também cuidará da respiração dos pulmões

22 - O escritor deve ser discreto mas também transparente

  • é importante revelar o que realmente pensa
  • é importante não chorar em público

domingo, 28 de novembro de 2010

Estefânio, chega!

Este blog interrompe agora a publicação de "Cronos ou Diário de um Neurótico" - que tem muito texto chato pela frente - e fica à disposição de outros projetos.
Isso não quer dizer que estou matando Estefânio Marchezini, mesmo porque ele é imortal. Estou apenas adiando a publicação do romance (na íntegra).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

núcleo Ribeirão Preto da UBE

Estefânio que me desculpe, mas terei que interromper seu discurso mais uma vez. Agora o assunto é a criação do núcleo da UBE (União Brasileira de Escritores) em Ribeirão Preto, da qual tenho a honra de participar. O núcleo foi criado por Menalton Braff e tem como integrantes o próprio Menalton, Roseli Braff, Eliane Ratier, Mara Senna, Ely Vieitez e eu. O objetivo do núcleo é dinamizar a UBE em Ribeirão Preto, entre outros projetos. Estamos em estágio de iniciação de tudo, formulando ideias, divulgando o núcleo, mas creio que será muito boa a empreitada.