quarta-feira, 22 de setembro de 2010

mais um romance está se construindo

Tenho estado super ocupada com a revisão (ou seria a reescrita) de um livro que criei em 2006. Ao longo dos últimos anos eu já fiz mil alterações nele. Mas de uns 2 ou 3 meses para cá as mudanças foram bruscas. É que em meio a algumas leituras, me dei conta de que o protagonista daquele livro de 2006 tinha muito do Fausto (do mito de Fausto, já explorado por grandes nomes da literatura universal). Então me ocorreu a ideia de assumir de vez que havia um Fausto na minha gaveta. Assim, mergulhei mais uma vez no texto, já tão revisado, e repensei o livro... Na verdade, a versão nova é praticamente um texto novo, de tantas alterações. Mas o espírito proposto desde o início ainda é o mesmo. Aliás, o título também é o mesmo do texto original: ATO PENITENCIAL.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O circo de horrores

Diário de Estefânio Marchezini

13 de agosto de 2005

O tempo que perco com pessoas, fatos e suas consequências não me retornará na forma de nada que seja vital, ao contrário, só prejudica os possíveis esforços que faço para me manter íntegro. Pois esse tempo quase sempre é preenchido por um pensamento contaminado pelas próprias circunstâncias que prezam e anseiam pelo meu deslocamento até aquelas pessoas, fatos e suas consequências, de modo a ganhar minha adesão ou derrotar a minha postura, de acordo com o que minha figura representa naquele porco ringue de lutadores mascarados.
E eu, lamentavelmente, mesmo percebendo tudo, acabo me deixando tomar pela mão suja de lama dos patrocinadores do circo.
Quero me libertar desse sentimento. Quero parar de pensar com raiva; quero deixar que conspirem contra mim, que me julguem à minha revelia. Que se dane tudo! Não há nada aqui, nesse mundinho de adolescentes metidos, que possa me servir ao crescimento. E o que pode parecer nocivo a mim, só o será se eu assim o considerar; e eu só o considerarei se cair na armadilha do sistema dessa turma.
Devo ser portanto como o romântico, o ingênuo, o esquizofrênico, ou o egocêntrico. Devo ser só!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

a neurose de Estefânio

Durante o tempo em que compus "Diário de Um Neurótico", eu perguntava, afinal, qual era o problema de Estefânio. Por que aquele medo profundo? Qual a origem de tanta impotência diante da maioridade?
Com o desenvolvimento da personagem, procurei explorar a ideia de uma geração "engolida" pela geração anterior. Essa foi a saída para o protagonista compreender seu deslocamento e seu gigante temor diante do que o mundo espera dos adultos. Daí veio a imagem do mito grego Cronos, que engolia os filhos ao nascerem. Estefânio se declara consciente sobre sua "doença", e entende que não se trata apenas de um caso isolado: ele é fruto de uma geração onde os pais e tutores, em nome da proteção aos filhos, anulam neles o pensamento, a ação, a vontade ou conduzem tudo de modo a poupá-los o máximo possível.
A relação com o tempo passa a ter um papel especial na figura do neurótico: Estefânio sabe que para agir, tomar decisões, fazer planos, tomar iniciativas, terá sempre que atravessar a barreira do distúrbio, o que lhe tomará mais tempo em relação àqueles que agem com mais segurança e equilíbrio.
Eis o perfil que traço do meu protagonista. Não creio que ele seja de todo uma fábula. Acho que Estefânio representa bem uma boa parte da geração de jovens hoje. E quanto a nós, sua geração antecedente, temos grande responsabilidade nesse estado de coisas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Talvez, um amigo

Diário de Estefânio Marchezini

12 de agosto de 2005

O Dani é um cara que poderia ser meu amigo se ele quisesse. Porque eu, por mim, seria amigo dele. Estamos na mesma sala desde a oitava série mas nunca trocamos mais do três ou quatro palavras porque nossas diferenças de personalidade são gritantes. Eu sou o cara caladão, bonzinho, que faz todas as lições de casa; Dani está sempre nos centros das rodas de garotos e garotas. É o cara que sempre fala mais alto, nunca está sozinho, é sempre o líder de qualquer grupo de pesquisa ou do time de basquete, futebol, vôlei... Eu sempre tive uma impressão interessante sobre ele... pelo menos até hoje. Sempre o achei um cara legal, sintonizado, atento às novidades, bem resolvido. Enfim, sempre o invejei quando sofria e sofro ainda com meu deslocamento, meu isolamento involuntário.
Mas hoje Dani e eu nos falamos por um bom tempo e pela primeira vez e infelizmente meu conceito sobre ele, depois desse contato, mudou radicalmente. Nos encontramos na cantina da escola, na hora do recreio. Ele se sentou na minha mesa porque não viu nenhuma outra vazia. Acabamos conversando. Ele começou dizendo que estava angustiado e foi logo despejando o motivo de sua angústia como se eu fosse seu amigo íntimo. Eu pensei: “Caramba, o Dani angustiado?!” Sempre vi esse cara como um cara poderoso, do tipo... “não tenho problemas”. Mas, para minha surpresa, o Dani me confidenciou coisas que, se fosse comigo, eu não teria coragem de dividir com um desconhecido, o que me dá uma boa sensação de normalidade porque tenho certeza que a maioria das pessoas pensaria como eu.
Não sei porque Dani fez isso, quero dizer, porque ele se abriu comigo, sendo que nós nunca fomos íntimos. Talvez faça parte do temperamento dele agir assim, falar de coisas de casa, da família, com o primeiro que aparece; ou então a exclusividade não esteja nele mas em mim; talvez Dani tenha procurado alguém fechado em si, dotado apenas de ouvidos e não de língua, e viu em mim o ouvinte perfeito.
Ao se apresentar, Dani me surpreendeu dizendo que já tinha ouvido falar de mim:
_ Todo mundo diz que você nunca se enturma. Por quê?
Eu, constrangido até os ossos, respondi:
_ Deve ser porque sou muito calado.
Confesso que procurei mas não achei resposta melhor. Ainda bem que ele pareceu não ter prestado atenção no que eu disse e perguntou:
_ A gente pode conversar um pouco?
Eu respondi que sim. E foi aí que Dani começou a falar. Disse que tinha acabado de fazer uma coisa inusitada. Eu fiquei calado, atento mas sem demonstrar curiosidade, embora estivesse curioso. Ele foi em frente:
_Acabei de ter uma conversa séria com o suposto e muito provável amante de minha mãe... Não foi um encontro fácil... não foi fácil enfrentar aquele cara... Sabe o que significa encarar o amante da própria mãe, cara?
Eu fiquei quieto, esperando aparecer algo mais inusitado, pois na verdade eu aguardava uma história diferente, mais misteriosa, mais escandalosa ou mais dramática. Dani fez uma pausa como se me dissesse “o que você acha disso?”. Como ele não desembuchava eu disse:
_Então você enfrentou o cara?
_Enfrentei. Eu não me intimidei, disse tudo numa tacada só, não dei chance nem dele pensar. Ele deve estar tonto até agora. Eu deixei bem claro para esse sujeitinho que ele não está lidando com idiotas, entendeu? O filho da puta deve estar, nesse momento, terminando o romance com a minha mãe. Pois eu tenho certeza que ele não vai ter cara de pau de continuar essa aventura depois de tudo que eu disse.
Antes que aquele babaca continuasse se vangloriando eu quis tirar uma dúvida:
_ Mas a sua mãe estava correspondendo?
E ele:
_ Que diferença faz? Ela é uma mulher casada, cara, tem um filho, eu; tem casa pra cuidar. Ela é minha mãe, caralho!
Eu não conseguia acreditar no que ouvia. O cara que eu achava ser tão maluco não passava de um imbecil. Ele não me perguntou mas eu quis expressar minha opinião para que ele se afastasse de mim o quanto antes.
_ Eu não me meteria numa história que não é minha... Se fosse comigo, eu deixava minha mãe se virar... É assunto dela... Ela é que tem que resolver...
Foi a vez do Dani ficar perplexo:
_ Espera aí, cara, você não está entendendo. Quando o pai da gente dá umas pulada de cerca, a gente até entende, mas eu estou falando da mãe, entendeu? Da minha mãe. Ela bem que tentou usar essa história de que meu pai é infiel, que ele usa o casamento por conveniência, que ele também tem uma amante, mas você não acha que a gente tem que aguentar essa balela, não é?
E eu:
_ Eu não acho nada, não conheço seus pais, não conheço os amantes deles.
Aí então, perdi o apetite. Eu, que estava na metade de um cachorro-quente, larguei o resto do lanche sobre a mesa, me calei de novo e fiquei esperando que o palhaço se levantasse e fosse desabafar ou contar vantagem em outra freguesia, mas como ele ria com deboche sabe-se lá por quê ou por quem, como se quisesse fechar seu dia de batalha com chave de ouro, humilhando o tipo mais excluído da escola, eu controlei milagrosamente minha fúria e num tom extremamente civilizado fiz minha última tentativa de me sobrepor:
_ Qual a diferença entre saber das aventuras do pai e saber das aventuras da mãe?
Dani fez uma expressão de quem tinha acabado de assistir um acidente, uma expressão que mais parecia a de um paciente ao saber do médico, que está condenado. Mas ao contrário do que eu esperava, ele não tentou me catequizar. Ele apenas fez um joguinho idiota que não me motivou a nada, mas pelo menos recuperou meu apetite:
_ Você não é desse mundo, né? Você não entendeu uma palavra do que eu disse, cara. Por isso que está sempre sozinho, você não entende nada da vida. Seu problema é que você é muito ingênuo. Cuidado, Estefânio, ingenuidade não leva a nada, só para o buraco. Você precisa conversar mais com as pessoas, dar uns beijos nas meninas. Você já ficou com alguém?
_ Não.
_ Você nunca ficou com nenhuma menina?!
A campainha da escola tocou avisando que o recreio tinha acabado. Dani queria dizer mais alguma coisa, sem dúvida, queria me enterrar vivo, mas estava cansado demais. Eu tive que engolir o que restava do lanche para voltar à aula.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mães

Diário de Estefânio Marchezini

10 de agosto de 2005

Minha mãe acabou de sair. Disse que vai para São Paulo. Disse que vai a um encontro de católicos num estádio de futebol. Graziela, minha mãe, é uma maravilha! Eu não sei como chegar à sua essência, mas sei que ela é magnífica. Ela encontrou Deus há algum tempo, depois de muita procura. Ela o encontrou na Igreja a e acredita que Ele realmente estava lá o tempo todo aguardando por ela. Por isso ela trata a Igreja como algo sagrado e em seus ouvidos não chega qualquer coisa que possa comprometer essa cumplicidade. Minha mãe é uma guardiã... uma guardiã atenta e fiel como os milhões que existem por aí... cada um fiel à sua religião.
Mas minha mãe é, acima de tudo, uma criatura em busca da Verdade, da Justiça, do Bem e da Salvação... assim como a grande massa de gente que a acompanhará até São Paulo, no tal encontro; assim como a grande massa que segue todos os grandes princípios religiosos que regem o espírito desse tempo.
Minha mãe já está salva simplesmente porque já é massa. “a voz do povo é a voz de Deus”.
A última vez que nos falamos hoje foi pela vidraça: “Vou rezar por você, filho. Fique com Deus! Jesus te ama!”... Ele, eu não sei, mas Graziela certamente me ama...
As mães deveriam ser colocadas em algum lugar especial como os anjos e os santos são colocados. Ora! Elas são de outra dimensão!


11 de agosto de 2005

Admitimos, nós cristãos, que Jesus Cristo fora um agente mas é provável que os especialistas, entre eles cientistas, filósofos e homens e mulheres diferentes de mim e dos outros tolos do universo, percebam que na verdade Jesus Cristo fora mera consequência de uma trajetória da História. Ou seja, talvez ele tenha sido produto inevitável do curso das coisas ou do cruzamento entre a trajetória histórica dos judeus com a trajetória histórica dos romanos.
Eu sei lá...
Talvez seja isso mesmo: eu sou um tolo surdo às coisas que alguns estão berrando nos meus ouvidos há séculos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

os olhos de Chronos

Diário de Estefânio Marchezini

06 de agosto de 2005

Hoje de manhã, depois da aula de inglês, eu andei pelas ruas e pela primeira vez elas passaram por mim. Antes eu não as sentia, não sentia sua respiração. Mas agora sei que elas respiram um ar misto, cheio de partículas diversas que saem dos pulmões das milhares de pessoas que cruzaram comigo e que cruzam todos os dias quando ando pelas ruas.
Eu sei porque isso aconteceu. É que nos últimos dias tenho pensado no futuro. Ele é assombroso, não gosto de pensar nele, mas não posso evitar. Então, ao brincar com o tempo, me deparei com o presente. Isso foi uma novidade na minha vida. E por isso eu fiquei mais sensível.
Então andei apressado, sentindo todo o vigor da minha juventude na força das minhas pernas e pés; sentindo toda saúde dos meus órgãos. E como não conseguia parar de pensar no tempo, comecei a enlouquecer. Saí batendo a cabeça pelos muros e a cada choque, cada choro, cada soluço, surgia na minha mente uma certeza: esse fantasma me perseguirá para sempre. Enquanto eu não acreditar que existo por inteiro, ou seja, enquanto eu acreditar que sou uma anulação do humano, o fantasma me perseguirá.
E como se não bastasse falar baixinho para mim mesmo o que eu já sabia, ainda vieram cenas que ainda não aconteceram, revelações do meu futuro, e me mostraram, como num filme de cinema, que realmente eu não tinha saída.
Tudo isso aconteceu dentro de mim sem que ninguém pelas ruas desconfiasse de nada. Minha face, provavelmente deformada pelo sufoco, não despertou a atenção de ninguém. Esse segredo, essa intimidade, essa reserva de sentimentos e perturbações... são a maior comprovação de que tudo que me foi revelado será de fato, meu futuro.

08 de agosto de 2005

Cada vez que uma pessoa adulta me aborda, é como se a síntese da vida estivesse diante de mim. Porque isso sempre acontece quando esses adultos, gente vivida e experiente, se irritam com os jovens e suas bobagens, suas brincadeirinhas e, na tentativa de chacoalhar a juventude e acordá-la para a maravilha que é estar vivo, acabam agredindo até. É uma forma de educar, eles pensam, mas não estão preocupados com a educação em si, pois esta poderia ser profunda, e o que esses adultos querem é apenas espantar dos mais jovens a sua tendência apavorada ao desprendimento da seriedade, com essas bobagens, essas brincadeiras e palavras ditas em voz alta mas que quase nunca dizem nada. De certo modo eu tenho que ter compreensão mas não posso esperar que eles me compreendam. Ainda que meu comportamento seja qualificado como o de um estranho, minhas tentativas de sobreviver a esse julgamento acabam às vezes me equiparando à maioria dos jovens da minha faixa etária e talvez por ser só um disfarce, minha verdadeira face acaba me denunciando e aí aqueles que não toleram risinhos, barulho, zoeira e palavras vazias, se lançam sobre mim com o objetivo de me expurgar. E eu, em silêncio, escuto os discursos enquanto saboreio o lamento amargo tanto pela vergonha de ser escolhido por minha fraqueza, quanto por entender que o que está em jogo não é a minha educação profunda mas apenas a educação temporária que me faça ser agradável a quem está perto de mim.
É diante dessas coisas, que até parecem exagero, sei lá... é diante disso que me sinto amedrontado. Pois vejo nesses alertas o problema da maturidade; mesmo que eles venham de alguém que viveu muito bem, que soube aproveitar cada minuto da juventude e que realizou todos os sonhos... Esses alertas mostram que viver intensamente e bem não é suficiente para despertar alguém para o profundo. Esse corpo, essa mente, esse espírito, e também toda essa coisa desconhecida que está sempre presente, tudo junto é apenas uma síntese. O resto é só desejo... o desejo inesgotável de parar o tempo enquanto não se enxerga luz... o desejo de dominar o tempo para a espera do último e triunfante discurso!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

para onde explodir?

Diário de Estefânio Marchezini

05 de agosto de 2005

Outro dia cheguei atrasado à primeira aula. Era aula de português. Valéria, a professora recém-contratada, vem fazendo um malabarismo sem fim para se adaptar ao novo trabalho. Acho que ela é recém-formada, pois se fosse mais experiente não deixaria tanta insegurança à vista.
No momento em que eu cheguei, Valéria devia estar metida em mais uma luta contra a própria fragilidade pois ela elevava a voz tentando conter a farra dos alunos, coisa normal quando eles percebem a insegurança do professor. Ao perceber minha presença e diante do meu pedido de desculpa pelo atraso, Valéria aproveitou para me envolver na sua luta e me expôs para a classe como se assim quisesse nos fragmentar. Avisou à turma:
_ Já que não chegamos a uma conclusão sobre o tema da redação, esse colega de vocês vai decidir.
E se dirigindo a mim, pediu:
_ Dê um tema para as redações dos seus colegas, por favor.
Surpreendido com o pedido e irritado com a atitude de Valéria em me envolver num assunto sem me consultar antes, apanhei o giz e sem dizer nada escrevi com letras garrafais o tema no quadro: “O que mais me irrita neste momento”. É claro que a classe foi à loucura num coro de gargalhadas que puderam ser ouvidas pelo pavilhão todo.
Valéria acatou minha decisão, provavelmente contrariada, pelo simples fato de eu ter provocado mais algazarra do que já havia, ainda que não estivesse claro se os risos vieram por causa do tema ou por causa da maneira irritada como eu o escrevi no quadro.
Mais tarde, já com os ânimos voltados ao normal, refleti sobre o que aconteceu. Me senti um idiota, não tanto pela ação impulsiva mas pelo desperdício e injustiça. Pressenti que houve um desperdício da ocasião em que eu, ao invés de ajudar Valéria a se fortalecer perante a classe, acabei fortalecendo um laço meu com a classe, que aliás é ilusório pois não há ninguém naquela sala que poderia entender minhas atitudes, assim como eu não consigo entender nenhuma de suas atitudes. E também cometi uma injustiça na medida em que diminuí Valéria quando ela, apesar de agir mais por desespero do que por consciência, me engrandeceu ao me promover a árbitro da situação.
Eis uma das coisas que mais me irritam a todo instante: não conseguir delinear onde começa e onde termina meu campo gravitacional. E eu nem sequer usei a oportunidade da redação para escrever sobre isso...