sábado, 31 de julho de 2010

Um diário de ambições!

Diário de Estefânio Marchezini

30 de julho de 2005

Onde não há pensamento artístico e a busca por uma expressão que dê conta das percepções, sentimentos e flagrantes da alma... onde não há essa perspectiva de criação, só pode haver a perspectiva estranha de que algum acidente fatal está prestes a acontecer, tamanho o desequilíbrio e a desordem que cercam tudo, do real à imaginação.


04 de agosto de 2005

A vontade de expressar por meio da arte é, definitivamente, a recusa do ar convencional que oxigena os cérebros.
Essa recusa tem origem na suspeita de tudo quanto pode parecer agradável e suficiente. Essa recusa é a constatação de que está havendo uma perversão mas não se sabe quem é o pervertido. A vontade de criar é a recusa do simples, do breve, do opaco, sobretudo do opaco. É a busca, paradoxalmente pouco esperançosa, da verdade, ou o consolo de acreditar que haja pelo menos uma verdade absoluta: a do interior de quem busca.

terça-feira, 27 de julho de 2010

como escrever

27 de julho de 2005

Desafio para mim: o atual.
Capto algumas características do mundo atual. Quero retratá-las de modo fiel ao modo como elas me vêm. Tenho que diagnosticar suas origens e buscar a lucidez, coerência e inteligência ao tentar fazer as análises.
Tais características precisam ser tratadas assim para que eu possa identificar onde e porque elas pertencem a este tempo e não a outro. A atualidade é pois um objeto vivo porque é nela que estou.
A atualidade é propensa ao meu juízo sobre a realidade. Então, que características, que dados, que fenômenos podem ser tratados sob esse princípio? O que é importante para mim e considerado como traço da atualidade, deve compartilhar a opinião de muitos, pessoas que também procuram essas respostas à luz da ciência e da filosofia.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O romance terá sua publicação via blog interrompido aqui.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

o discreto tumulto

Diário de Estefânio Marchezini

29 de julho de 2005

Algumas vezes me animo em discussões em que alguém cita meu futuro. Me animo porque a simples pronúncia da palavra futuro me lança nele pelo menos na mente de quem a pronuncia. Imagino o que se projeta para mim e sobretudo sobre mim. Gostaria de conhecer o amanhã só para ter certeza de que o agora é real.
Entre meus esforços para me envolver com o mundo surgem experiências estranhas que me soam extravagantes demais. Penso que se o crescimento é tão confuso assim, como vou saber o momento certo assumir a maturidade?
Meus gestos são tão precisos, meu silêncio é tão cômodo. É impossível que alguém perceba a loucura dos meus dias, a sensibilidade dos meus nervos. Ninguém imagina o que para mim é mais que óbvio: que a qualquer segundo posso desaparecer como a imagem de uma televisão ao ser desligada. Meus dedos vivem com as extremidades protegidas por esparadrapos e quando alguém pergunta por eles, eu invento que é uma forma de me evitar roer as unhas. Todos acreditam nessa história, nem imaginam que os esparadrapos foram colocados para estancar o sangue dos pequenos cortes que eu provoquei voluntariamente só para ver meu sangue escorrer como se, com ele, também estivesse escorrendo alguma impureza da qual eu quisesse me livrar.
Juízos, possibilidades, pretensões, dúvidas, certezas e até amores surgem em forma de penumbras apenas, a todo instante, quando eu menos espero e sem que eu tenha tempo e cabeça para captá-los. Brincam com a minha vulnerabilidade ao entusiasmo, recolhem meus impulsos de qualquer jeito, fazem deles uma festa onde eu, convertido em anfitrião, tento acreditar que posso domá-los. Quando dou por mim, estou sonolento, embriagado pelo êxtase da festa; mas não quero dormir; quero seguir pela noite dançando com todos os fantasmas presentes, quero sentir a intensidade de cada um, quero abraçá-los. Todos, no entanto, se mostram fugidios como o galho da lucidez em que tento me agarrar a cada final de festa.
Ainda há quem se atreva a falar em seriedade quando se trata de vida!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

deslocamento

Diário de Estefânio Marchezini

25 de julho de 2005

A ebulição de perguntas que nem chegam a ser formuladas direito consomem minha capacidade de demonstrar bom humor. Assim, me torno um ser rude, envelhecido, indisposto. Isso talvez explique porque meus colegas se afastam de mim. Se por um lado colaboro para a paz dos adultos que me cercam, ao me calar diante da tal ebulição, por outro lado eu afugento os outros jovens pois entre eles é mais difícil disfarçar os medos que teimam em me atormentar. Essa dificuldade consiste justamente no fato de eu esperar que entre nós, jovens da mesma faixa de idade, poderíamos compartilhar esse tumulto; o problema é que até para isso, ao que parece, foram estabelecidos alguns regulamentos e eu não consigo localizá-los... ou eles não querem me localizar. De modo que fico suspenso: para os adultos, estou entre os jovens; para os jovens, estou perdido.

sábado, 10 de abril de 2010

uma pausa na história de Estefânio, para eu falar de outros romances que estão em andamento

A POLÍTICA SEGUNDO DANI SCARPINI
O grande conflito que move o enredo é o abalo de Dani Scarpini depois do fim de uma relação amorosa breve mas intensa. Enquanto tenta se desvencilhar de tal sofrimento, Dani vive um cotidiano sem grandes emoções: ganha a vida trabalhando numa imobiliária e à noite, depois do expediente, visita um bar onde faz amizades e procura alguém que substitua o amor perdido.
Em casa, Dani vive, não numa família nuclear, mas num clã. A propriedade dos Scarpini abriga tanto a casa onde Dani mora com a mãe como outras três casas de irmãos de seu falecido pai. Essa família, descendente de italianos (como muitas famílias de Bonfim Paulista), é formada por pessoas excêntricas e um tanto quanto exóticas, herdeiros de empreendimentos decadentes. Essas pessoas são fortemente marcadas por traços de tradições diversas: ruralista, benzedeira, circense; além de incluir parentes “positivistas”, aqueles que lutam para livrar as novas gerações dos entraves do passado (tradições e excentricidades que comprometeram a prosperidade da família) e que procuram orientar esses novos Scarpini no rumo de uma vida mais racional, sóbria e empreendedora.
Enquanto assiste à luta familiar entre loucos e positivistas, Dani acompanha uma trajetória eleitoral onde sua mãe e outros parentes, por serem populares no distrito de Bonfim Paulista, são convidados a participar da campanha de um partido nas eleições municipais de 2008. Dani condena tal envolvimento porque percebe que a mãe está sendo usada. Mas não consegue se fazer escutar e nem diminuir o entusiasmo dentro do clã em relação às promessas dos candidatos e do ambiente político eleitoral.
Enquanto isso, no ambiente noturno do bar, os namoros, as amizades, a sedução e a boemia, são para Dani ingredientes de outra luta, uma luta discreta onde estão envolvidos valores, discursos, maneiras, costumes, domínios diversos, preconceitos, estética, competições, obsessões, desilusões.
Toda essa variedade de lutas vai construindo a concepção de poder de Dani Scarpini.

PUNHO DE AÇO
Téo mora de favor numa casa paroquial. Por ela passam vários hóspedes que Téo recebe sem problemas.
Mas um dia a casa recebe a figura de um homem, um enfermeiro, que transformará a vida de Téo num inferno. Esse homem, que a princípio é recebido como uma graça, com o tempo passa a exercer sobre Téo uma estranha força: sem nenhum propósito muito claro para Téo, o enfermeiro passa assediá-lo de maneira implacável. Sempre que tem oportunidade e sob diversas formas faz referências à condição de Téo como beneficiário da igreja, como que zombando de sua natureza passiva, dependente e até certo ponto, anulada.

Estefânio assume sua irremediável desconfiança

Diário de Estefânio Marchezini

23 de julho de 2005

Percebo que há alguns valores recentes que ganharam terreno expressivo nos últimos anos, ao menos naqueles em que comecei a observar o mundo com mais cuidado e desconfiança, atento inclusive para elementos que eu não reconhecia antes desse período. E nesse ponto, encontramos uma contradição em relação à visão que se cultua hoje sobre a minha geração: o individualismo, um dos produtos mais bem acabados que a era da Internet criou, é também um risco para a cultura da patrulha invisível pró-bem-estar-e-segurança. Pois é justamente aí que encontro alguns dos meus pontos de fuga quando não suporto mais fugir na representação. No entanto, obcecado por essa contradição, acabo fazendo do que seria um alívio, mais um motivo para a desconfiança e a hesitação.